21
abr
2014
Crítica: “Noé”
Categorias: Críticas • Postado por: Victor Hugo
Noé (Noah)
Darren Aronofsky, 2014
Roteiristas: Darren Aronofsky, Ari Handel
Paramount

2.5

O problema de se adaptar qualquer obra literária, religiosa ou não, é a expectativa. Todos os fãs/fiéis esperam uma única coisa de qualquer roteirista ou autor: A fidelidade aos originais. Ninguém é ingênuo ao ponto de pensar que 3 páginas da Bíblia, o livro mais famoso/comprado/lido/crido do mundo, seriam fielmente transformados em duas horas, aliás, todos esperavam pelas alterações.

Noé (Noah, 2014) vai além disso.

O filme foi vendido durante toda sua campanha publicitária como uma clássica adaptação bíblica, aos moldes de Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1956), com alterações, mas nada que transforme o sentido principal da história. Não foi assim. Percebemos logo de cara que fomos enganados pelos trailers e no final das contas, temos aqui uma adaptação distorcida, o que aliás não a torna invalida. O sentimento que permeia a película porém, é o de uma fantasia.

Não quero entrar na discussão bíblica/teológica sobre a história, se ela foi real ou não, pouco importa para a arte. O problema porém é a distorção cruel, de um épico bíblico sobre a piedade do criador ao salvar os únicos homens bons que restavam no planeta em uma mensagem ateísta sobre a maldade de Deus, que aliás, não é citado com esse nome, apenas como Criador, nunca ouvido, só tendo contato com Noé através do seu bisavô Matusalém (Anthony Hopkins) – outra alteração do original. E o que temos no final das contas é um festival de corpos ajuntando-se sobre pedras, gritos agonizantes, personagens inocentes e bondosos sendo deixados a morte, além de um protagonista que beira a loucura durante todo o filme. Para o Noé da adaptação (Russell Crowe), todos os seres humanos (inclusive sua própria família) deveriam morrer, e só os animais deveriam sobreviver.

Temos também a invenção não-bíblica mais risível de todo o roteiro: Os guardiões. Anjos caídos por uma suposta “ajudinha misericordiosa ao ser humano” que foram castigados e aprisionados em pedras. Como se libertariam? Se ajudassem Noé a construir a arca.

Outra cena risível e que é a parte principal do apelo ateísta do filme é quando Noé conta sobre a criação do mundo para sua família. A troca de “No princípio criou Deus o céus e a Terra” por “No princípio não havia nada” e a alusão inteligentíssima do “Faça-se a luz” com a imagem do Big Bang são as sacadas mais sábias. E em seguida temos uma curiosa elaboração de Evolucionismo Teísta, demonstrando Deus como agente causador da evolução.

Apesar das mais diversas alterações cruéis e maldosas do original, o filme tem sua beleza na fotografia e nas atuações que são muito boas nos personagens secundárias e principais. Os efeitos cambalearam entre bons, já que o dilúvio foi feito de forma extremamente realista; e ruins, os animais chegando a arca e os tais guardiões são tão surreais que pareciam ter sido tirados de um filme de fantasia. Outra mensagem ateísta talvez?! Não passariam as histórias bíblicas de histórias de fantasia?!

A conclusão que tomamos por esse filme é o simples fato de ter sido feito e vendido da forma errada. A única coisa realmente retirada da história bíblica deste filme é o nome de ALGUNS personagens. Pobres coitados são os que não conhecem a verdadeira história e resolvam assistir essa película. A eles, só peço que não gastem seu dinheiro com ingressos antes de usar um pouco de tempo lendo alguns versículos.



Lorde Vampírico e Geográfico das trevas, ex-ditador dessa pocilga, aspirante a escritor e a web-designer, twilighter, beatlemaniaco, parawhore, narniano e, é claro, cinéfilo. Hoje me resumo à vice-presidente do site. Amém irmãos? Amém.