25
abr
2014
Crítica: “O Som ao Redor”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
O Som ao Redor
O Som Ao Redor
Kleber Mendonça Filho, 2012
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Vitrine Filmes

4.5

O som no cinema surgiu aos poucos conforme as produções eram sendo feitas. Os diálogos não eram tão importantes na composição de cenas e a história era contada de um outro jeito interessante. Com o nascimento do som no cinema, surgiram diversos gêneros como os musicais e as comédias. E em meio a essa “evolução”, havia alguns resistentes em aderir a experiência do diálogo, presando sempre pelo silêncio. Muitos anos depois, voltamos a ter uma noção da beleza do silêncio no cinema e a exploração de outros tipos de sons que surgem ao redor de nós no dia-a-dia.

O premiado O Som ao Redor do diretor e roteirista pernambucano Kleber Mendonça Filho escolheu o cotidiano para tratar do silêncio. No longa, está em evidência o cotidiano de um pessoal morador de uma rua de classe média na zona sul do Recife onde diversos personagens vivendo seus próprios conflitos são servidos de uma milícia que promete a paz de espírito da segurança particular. Essa tal milícia, liderada por Clodoaldo (Irandhir Santos) chega a de fato oferecer certa tranquilidade a alguns, mas também o terror para outros. O ponto chamativo deste enredo são os interesses que Francisco (Waldemar José Solha), homem importante da região, possui com a tal milícia.

Mas a história não para por aí, pois o roteiro explora o dia-a-dia desse pessoal, junto dessa milícia, como por exemplo, moradores incomodados com a ineficiência do porteiro do condomínio; o corretor de imóveis João (Gustavo Jahn) que por conta de uma acontecimento macabro em tal apartamento que estava sendo apresentado deixa uma interessada aflita; um rapaz que insiste em fazer pequenos furtos e uma moradora visivelmente incomodada com o barulho do cachorro do vizinho. Inclusive, esta trama, fora uma das mais bem exploradas no longa. Aqui a dona de casa Bia (Maeve Jinkings) tenta de diversas formas se livrar desses constantes e barulhentos latidos, recorrendo desde  soníferos a aparelhos que incomodam os tímpanos do animal com uma certa frequência de som.

A coisa mais bela e chamativa no filme talvez seja a grandiosidade e importância que o diretor dá a pequenas coisas, como por exemplo, uma máquina lavando roupa ou uma bola de futebol perdida por um menino que brincava na rua. Vê-se minutos dedicados a explorar o som que essas coisas provocam, mostrando de forma bela e dificilmente explorada no cinema atual, onde produções cheias de músicas e efeitos são as mais chamativas e compradas. A tranquilidade também é uma virtude que o diretor soube dosar com cenas cativantes e impressionantes.

Obviamente, diversos comentários surgiram por aí reclamando que os atores sussurravam ao invés de dizer o texto “em alto e bom som”, mas como dito anteriormente, a beleza do longa está nas pequenas coisas que se engrandecem e surpreendem de forma astuta, além de prezar pelo som natural do ambiente ao invés de dar tanta projeção a algo já muito difundido. Isso é levado ao espectador de forma sutil, porém ágil. Outro ponto forte é sua trilha sonora que faz jus à proposta oferecida por Kleber Mendonça em sua primeira obra em longa-metragem de ficção.

Além de encantador, um pouco assustador e de fato inovador, o longa merece atenção, primeiramente por revelar horizontes não muito explorados hoje em dia, além de apresentar atores eficientes que cumprem seus papeis de forma inteligente e interessante convencendo no que se propõe.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.