28
maio
2014
Crítica: “A Memória Que Me Contam”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
A Memória Que Me Contam
Lúcia Murat, 2012
Roteiro: Lúcia Murat
Imovision

3.5

A ditadura militar (1964-1985) é um período marcante na história do Brasil. E após quase 30 anos passados do fim desse período, uma comissão da verdade procura investigar os crimes cometidos naquela época. Diversas pessoas lutaram contra a ditadura instaurada no país, foram torturados, presos e alguns exilados. E no longa conhecemos então um grupo de amigos que resistiram à ditadura militar no Brasil reunidos em uma sala de hospital quando uma das membras de seu grupo está à beira da morte.

A ex-guerrilheira Ana (Simone Spoladore) enquanto está no hospital internada passa a dialogar de forma fantasiosa com os outros personagens, principalmente com Irene (Irene Ravache) uma diretora de cinema que além de lidar com a morte iminente de sua amiga ainda precisa encontrar um jeito de lidar com a prisão inesperada de seu marido, Paolo (Franco Nero) acusado de ter matado pessoas em um atentado há duas décadas na Itália. Com esse enredo, Lúcia Murat nos apresenta uma história muito íntima onde retrata de certa forma sua experiência própria com relação a morte de uma amiga querida, Vera Sílvia Magalhães, a quem o filme é dedicado, assim como diversos questionamentos que tem dentro de si.

Esse lado mais surreal do longa é simplesmente cativante pois a memória que os personagens tem de Ana, enquanto jovem, é trazida a tona para conversar. Simone Spoladore tem uma atuação muito boa em suas cenas onde até dialoga em italiano e convence na pele de uma ex-guerrilheira cheia de determinação e sede de vida. Ao longo de suas discussões acerca do passado intercalado com eventos do presente, os personagens apresentam bons diálogos e trazem a tona sua culpa por alguns acontecimentos. Murat executa o filme muito bem, porém de forma lenta, mostrando de vez em quando personagens interessantes que passaram pela vida de Ana.

Apesar de seu título chamativo e proposta interessante como um todo, A Memória Que Me Contam acaba dando espaço a mais perguntas e questionamentos do que respostas o transformando em um filme amplamente subjetivo para demonstrar diversas sensações inesperadas. E com sua narrativa vemos, além da premissa principal, crises existenciais e conflitos do cotidianos pouco explorados, mas de certa forma também interessantes e que com certeza poderiam ter sido melhor trabalhados, como a arte contemporânea de Eduardo (Miguel Thiré), filho de Irene.

No mais, é um filme com belas cenas, bons atores e um enredo chamativo fazendo diversos questionamentos, pondo em pautas diversas dúvidas, mas deixando tudo por ali mesmo. O final é comovente, mas necessário. Particular porém lento; bom e apenas isso. Quem sabe um dia o assista novamente.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.