17
maio
2014
Crítica: “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
Daniel Ribeiro, 2014
Roteiro: Daniel Ribeiro
Vitrine Filmes

4.5

Quando lançado em 2010 o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho gerou certa polêmica em sua apresentação por conta do tema. Talvez, também, por conta disso a pequena, porém bela história desenvolvida pelo diretor Daniel Ribeiro em cerca de dezessete minutos tenha se popularizado ainda mais de forma muito positiva. A proposito, foi em meio a essas notícias que conheci o trabalho do diretor e roteirista; e também desses jovens atores.

Alguns anos mais tarde, Daniel desmembra o curta e o transforma em longa de uma maneira inteligente, astuta e já com uma legião de fãs pelo país afora. Premiado no Festival de Berlim e sendo apresentado em outros festivais, ‘Hoje eu Quero Voltar Sozinho’ é muito mais que um filme sobre a descoberta do primeiro amor e, no caso aqui, um amor homossexual. Leo (Ghilherme Lobo) é um garoto cego com uma melhor amiga Giovanna (Tess Amorim) que está sempre a seu lado, inclusive o levando pra casa ajudando em sua locomoção. Porém, Leo quer um pouco mais de liberdade, assim como todo adolescente almeja e o fato de ser cego só aumenta os cuidados que seus pais têm sobre ele, o que o irrita em diversos momentos.

Na escola, um novo aluno surge na classe, ele é Gabriel (Fábio Audi), que tenta socializar com esses dois amigos, de forma que de vez em quando acaba cometendo certas gafes e esquecendo que Leo não enxerga, como convida-lo pra ir no cinema ou ver o eclipse lunar. Aos poucos, um conflito entre os três surge, pois Giovanna se sente excluída em algumas situações, principalmente depois que duplas devem apresentar um trabalho onde meninos trabalham com meninos e vice-versa, fato que estava presente no curta.

Enquanto o protagonista descobre certos sentimentos novos dentro de si, desperta mais e mais seu desejo de se libertar de sua superproteção, de morar sozinho, de não ter todos ao seu redor tão preocupados com coisas simples de sua vida. Inclusive, a avó de Leo, Maria (Selma Egrei) que em poucas cenas cativa o expectador com suas histórias de vida, também demonstra ser uma aliada do garoto. Aos poucos o longa, lembrando diversos momentos e pontos cruciais do curta, vai crescendo, mostrando a evolução dos sentimentos do casal protagonista e em seu clímax vemos um momento tão aguardado pelos expectadores. Aliás, na sessão em que pude assistir o filme, notei a plateia vidrada e emocionada com a cena em questão.

Essa mesma plateia aplaudiu uma outra cena incrível já nos minutos finais onde uma resposta ao preconceito foi dada de maneira sutil e sem grandes discursos. E esta ação basta para se compreender a mensagem deixada pelo diretor. A trilha sonora é outro ponto forte, indo de música clássica, gostada pelo protagonista, à MPB de Cícero e a balada indie de Belle and Sebastian, que inclusive é citada durante o longa como uma das bandas favoritas de Gabriel.

O elenco principal é forte, destaque para Lobo que se mantém com os olhos estáticos em um ponto dando ainda mais veracidade a seu personagem. Certas cenas também são construídas de maneira sublime, como quando é representado um sonho de Leo, assim como as cores que são bem utilizadas. Com pontos altos passíveis de aplausos, personagens carismáticos e cativantes, situações de humor leve e tapas-na-cara em preconceituosos ‘Hoje eu Quero Voltar Sozinho’ é belo, sutil, tocante e emocionante. Além do mais, é ousado, delicado e completamente bem construído. Merece toda a nossa atenção!

Minha experiência: Superou toda e qualquer expectativa que eu tinha e me senti feliz quase da mesma forma quando vi o curta pela primeira vez.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.