28
jun
2014
Crítica: “Linha de Passe”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Linha de Passe
Linha de Passe
Walter Salles e Daniela Thomas, 2008
Roteiro: George Moura e Daniela Thomas
Pathé International

4

São Paulo é uma cidade notavelmente imensa. Gigante em diversos aspectos, tanto de população, território e também inúmeros problemas. Mas em que lugar do mundo não se tem isso? A cidade foi a escolhida pelo competente diretor Walter Salles, que junto de Daniela Thomas fazem um grande trabalho, como cenário de Linha de Passe premiado em Cannes com Prix d’interprétation féminine (melhor interpretação feminina) de Sandra Corveloni.

O filme conta a história de cinco protagonistas de uma complexa família. A mãe, Cleuza (Sandra Corveloni) é uma empregada doméstica que está grávida de seu quinto filho e que tenta de todas as formas dar o melhor para os seus outros que cria sem os pais; Dário (Vinícius de Oliveira) tem o sonho de ser jogador de futebol, mas que depois de ser reprovado em uma peneirada e por conta da idade vê seu sonho se distanciar pouco a pouco; Denis (João Baldasserini), motoboy com um filho pequeno e que desvia sempre do caminho guiado pela mãe; Dinho (José Geraldo Rodrigues), um rapaz trabalhador, humilde, correto e religioso e Reginaldo (Kaique Jesus Santos), o mais novo, em suas tentativas de encontrar seu pai.

A grande entrega que cada ator do elenco principal (em sua maioria desconhecidos do grande público) dá a seu personagem é visível e o que se tem são histórias, que mesmo dramáticas, são cativantes. O roteiro constrói uma trama bem estruturada e verossímil. O cenário que tenta a todo custo mostrar uma realidade sofrida nos transporta para o cotidiano desta conturbada família. O conflito de cada um deles é mostrado individualmente, mas sempre com certa ligação. Do mais inocente filho que tenta a todo custo encontrar seu pai ao malandro que tenta se dar bem na vida fazendo furtos.

Na construção individual das personagens, onde as cenas são intercaladas, fica visível um interesse maior do roteiro em explorar a vida de Dário, que sonha em ser jogador de futebol para não ser vítima de um futuro incerto. Além de cenas de jogos do mesmo, também encontramos na trama cenas de jogos de times de futebol paulistas, como o Corinthians. Também fica claro que Cleuza é uma torcedora assídua do time em questão e, que mesmo grávida, sendo ajudada no trabalho por sua generosa patroa e uma outra doméstica, acompanha o que pode desse time. As atuações no geral convencem e muito, seja por cada palavra pronunciada ou por cada olhar empregado. Cleuza é uma personagem simples com erros e acertos na vida, humilde na medida do possível e que mesmo bebendo e fumando durante sua gravidez sente-se à vontade para seguir a diante.

Em Linha de Passe, Walter Salles aborda mais uma vez a ausência de paternidade nas famílias brasileiras. Além de ter uma fotografia urbana bem impressionante, o longa é fiel à proposta inicial, podendo ser assistido sem medo de grandes decepções. É um filme cheio de assuntos atuais e sonhos; temas recorrentes bem marcados, como uma pia entupida ou o pastor de Dinho preocupado com a ausência de fieis e de consequentemente dinheiro para manter a igreja; além de ter uma construção singela, inteligente e tocante, mesmo que tenha um final subentendido para as personagens, o que é compreensível para aquelas vidas ali mostradas poderem seguir adiante depois de os créditos subirem.

Os diretores oferecem aos telespectadores um belo filme onde a figura paterna talvez nem seja tão necessária e onde os sonhos dão sempre certa esperança em uma vida turbulenta.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.