19
jun
2014
Crítica: “Meninos de Kichute”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Meninos de Kichute
Meninos de Kichute
Luca Amberg, 2009
Roteiro: Luca Amberg e Márcio Américo
Amberg Filmes

3.5

Todos nós temos sonhos que tentamos ao máximo fazê-los tornar realidade. Meninos de Kichute parte desta premissa, no caso, do sonho de ser goleiro. É baseado no livro do londrinense Márcio Américo, que também assina o roteiro. Por algum motivo que eu não sei explicar, esse filme, produzido em 2009, chega aos cinemas somente agora.

Beto (Lucas Alexandre) é um garoto simples, filho do meio de uma família religiosa, onde não podem participar de festas, de competições entre outras coisas por conta da religião não permitir. O pai (Werner Schünemann) é um pintor autoritário e machista que sempre oprime seus filhos, caso os mesmos dêem um passinho fora da linha que traçou. A esposa, Maria (Viviane Pasmanter) é uma mulher que em diversas situações entra muda e sai calada mas tenta fazer sempre o melhor para os filhos.

Essa família reside em uma casinha de madeira com dois cômodos nos fundos da casa de Leonor (Arlete Salles), uma simpática senhora que está sempre ao lado da cachaça e de nosso protagonista. A mesma se preocupa bastante com o mesmo e até lhe presenteia em certos momentos. Brincando com seu irmão mais novo, Ismael (Vinicius Azar Damas) e recebendo todo o apoio e ternura da irmã mais velha Rosa (Mayara Comunale), Beto se aventura pelas ruas de Londrina em meados dos anos 70. Com seu grupo de amigos, vizinhos e outros colegas da escola, o clube dos meninos de kichute (o tênis da moda na época) é fundado enquanto jogam uma tímida “pelada” à vista de olheiros que os convidam para uma peneirada, a qual Beto é impedido em um primeiro momento de participar por conta de sua religião e da opressão do pai. Após um dos membros de seu time perceber que teria medo de uma cobrança de pênalti, nosso amigo encara o gol e descobre seu talento para goleiro.

A partir de então, assiste-se a guerra entre o sonho de ser goleiro e um patriarca hipócrita que vê o esporte como pecado, em meio a aulas na escola, onde bullying, discriminação, entre outros assuntos são pincelados ao telespectador. A caracterização das personagens, figurinos justos e cenografia com carros e arquitetura que remontam à época proposta, na década de 70, são de encher os olhos. As cores utilizadas nas roupas dos meninos enquanto jogam seu futebol contrastam com a paisagem e dão harmonia no conjunto da obra. Tudo isso traz uma veracidade maior ao que está sendo contado, assim como a convincente jornada de Beto.

Os atores mirins são ágeis e seus diálogos bem escritos, com destaque para Lucas Alexandre. É uma pena que em meio a tantos personagens, alguns não tenham sido tão bem aproveitados quanto se poderia e situações não muito exploradas anteriormente tenham desfechos rápidos e quase sem sentido no momento exibido. Certas coisas como a trilha sonora se perdem em meio a tantas outras. Uma trilha muito boa que inclui Secos & Molhados e Jorge Ben.  E, como morador de Londrina, não pude deixar de reconhecer certos detalhes. Em uma das cenas, é citada a rua em que Beto e seus amigos moram, assim como o bairro, Vila Nova. Também é citado o time de futebol da cidade e uma de suas conquistas memoráveis que meu pai com certeza vibraria se se interessasse em assistir o longa.

Com passagens divertidas e engraçadas na medida, cenas visualmente bonitas, exímia simplicidade e direção, no geral, consistente, Meninos do Kichute deveria ter sido melhor explorado na época de seu lançamento, pois é um bom filme. Quem sabe o reconhecimento venha com o tempo.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.