10
jul
2014
Crítica: “Entre Nós”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Entre Nós
Paulo e Pedro Morelli, 2013
Roteiro: Paulo Morelli
O2 Filmes

4.5

Um dos temas mais incríveis e também mais difundidos mundo afora, a amizade, ainda gera ótimas abordagens cinematográficas, literárias, musicais e Entre Nós trata exatamente disso. Um grupo de amigos com diversas divergências, mas que têm em comum a paixão pelas Letras. Pensando que qualquer outra história do tipo sobre qualquer que fosse o grupo de amigos poderia sair um mais do mesmo de fato, mas este longa vai além disso.

Com a competente direção de Paulo e Pedro Morelli, respectivamente pai e filho, o longa aborda as diferenças, semelhanças, divagações, medos, angústias e tudo o que se pode discutir quando se fala do ser humano. Parte da premissa dos jovens sonhadores que estão pensando muito em seus futuros, escrevendo até cartinhas para si mesmo e as enterrando para afim de dez anos ler tudo em voz alta para todos e, de um desses amigos ser um escritor muito bom que morre tragicamente em um acidente. O roteiro conta como tudo se dá exatamente nos dez anos passados. Nesse grupo vemos diversos sonhadores, alguns obtiveram sucesso e uma vida estável como é o caso de Felipe (Caio Blat), um escritor com alguns livros publicados que casado, tem um filho com Lúcia (Carolina Dieckmann). Ele era o melhor amigo de Rafa (Lee Taylor), o escritor morto no acidente, assim como Silvana (Maria Ribeiro) que parecia ter uma quedinha por este. No time ainda temos Gus (Paulo Vilhena), que a princípio parece ser um cara frustado com os caminhos que sua vida tomou e o casal composto pela incrível e divertida Drica (Martha Nowill) e o crítico imperdoável Cazé (Julio Andrade).

O elenco é forte, convincente como um grupo que se conhece há tempos, passando deste modo, uma veracidade grandiosa para os dramas de cada um. Desta forma, ficamos nos perguntando se aquilo tudo não é real mesmo, afinal de contas não podemos encontrar facilmente por aí algum amigo que tenha uma certa frustração com sua vida ou algum outro que tem uma mente digamos, (não totalmente) fechada para outras opiniões? Ainda que o personagem de Blat seja bastante controverso e um diálogo sobre política onde a frase “Ninguém chega ao poder sem sujar as mãos” se encaixa perfeitamente na situação abordada, tudo o que fora apresentado pode ser visto de perto por todos nós.

Aliás, não só o personagem Blat parece ser tão controverso, mas sim todos eles, afinal de contas, todos possuem erros, acertos, dúvidas e opiniões diversificadas. Gus parece não ter esquecido sua então namorada na época que fora Lúcia e em sua carta deixada a si mesmo para só ser aberta mais tarde, declara-se a esta que atualmente está casada com o amigo e, mesmo assim, tenta de alguma forma demonstrar que ainda sente uma grande atração por ela. Cazé é do tipo que acredita ser superior a todos os outros ali presentes, pensando também que tudo a sua volta é ruim e medíocre, tanto que em sua carta já deixa claro o que seria quando “crescesse” (e é realizado) e sua esposa Drica confirma tudo dizendo em alto e bom som que só está com ele porque o ama muito.

Uma fotografia incrível, de encher os olhos, com belas paisagens, bons enquadramentos e jogos de câmera, dando um clima harmonioso e tranquilo para cenas tranquilas e quebrando um pouco dessa tranquilidade nas cenas mais tensas. Talvez em alguns momentos as imagens possam ter aparentemente caminhado para um lado um tanto quanto comum, mas o espectador acaba por ver que aquilo não passava de uma ilusão. Discussões interessantes da época também são levadas em conta e são bons pontos do filme, assim como a cena em que Gus e Drica dançam uma música hit dos anos noventa. Na trilha pode-se encontrar a canção ‘Na asa do Vento’, que esse grupo canta em duas ocasiões distintas: a primeira em 1992 no início do filme e a segunda já em 2002, quando se recordam um pouquinho dos velhos tempos.

Entre Nós é um filme sobre laços de amizades distintos, sendo honesto em todos os momentos com seu espectador, fazendo o mesmo saber de tudo ou quase tudo que fosse necessário. Atores bem dirigidos, cenas bem narradas, diálogos deveras convincentes e focados nos dramas internos de cada um deles, é um filme delicado e metafórico; complexo e intenso. Acredito que vou rever e rever e rever sempre que conseguir!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.