23
ago
2014
Crítica: “O Homem Duplicado”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
O Homem Duplicado (Enemy)
Denis Villeneuve, 2014
Roteiro: Javier Gullón
Imagem Filmes

4

Esses dias lendo os comentários de uma crítica na internet uma frase me chamou bastante a atenção, parafraseando: Adaptações cinematográficas deveriam se sustentar sem o material no qual haviam se baseado. Acho que concordo um pouco com esta afirmação e logo que a li, lembrei de uma palestra a qual tive a oportunidade de assistir de dois cineastas londrinenses que discutiam literatura x cinema. De fato, muitas adaptações são feitas e nem sempre os fãs da obra literária acabam curtindo a nova linguagem apresentada, mas seria legal se estes também enxergassem os filmes do tipo isolando as duas mídias, se é que me entendem.

O Homem Duplicado (Enemy) é baseado no livro homônimo de José Saramago, um escritor do qual gosto bastante, apesar de ter lido apenas uma de suas obras e alguns outros textos de sua autoria. Quem já teve a oportunidade de ler um Saramago, sabe que sua escrita é peculiar, que suas histórias são muito boas e sempre cheias de diversas interpretações, personagens fortes e muitas reflexões. O autor, durante muitos anos, não quis liberar os direitos de suas obras para o cinema e em 2010 o diretor Fernando Meirelles conseguiu o primeiro com Ensaio Sobre a Cegueira, filme que eu gostei há dois anos atrás sem antes ter lido e, que agora, preciso assistir novamente depois de ter gostado tanto do livro. Resumidamente, Saramago não é fácil em qualquer aspecto!

Não tinha conhecimento do livro, nem do filme e fui surpreendido ao sair da sessão de Pulp Ficton quando o conheci. E quero assistir o filme outras vezes pra apreciar tudo mais de perto. Antes de mais nada, preciso dizer que algumas coisas mudaram (obviamente, sempre mudam) como o nome dos personagens, o que é até compreensível no contexto do filme. O protagonista no livro se chama Tertuliano Maximo Afonso e seu sósia Daniel Santa-Clara. Pois bem, chega de falar do livro, até porque eu ainda não o li, mas pretendo fazer isso em breve e, também porque o filme precisa se sustentar sem o material de base.

Adam Bell (Jake Gyllenhaal) é um professor de história que dá aulas em uma universidade. Sua vida é mais que tediosa já que segue uma rotina comum: da casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Certo dia, um colega de trabalho sugere que este assista a um filme e, por curiosidade Adam acaba indo a locadora para acatar à recomendação do colega. Talvez por ser bastante detalhista acabou, assistindo ao longa, reparando em um certo ator que tinha muita semelhança consigo. Intrigado com isso, observou atentamente os créditos, pesquisou a carreira do dito cujo na internet e alugou outros filmes onde o mesmo teria atuado para ter certeza de que não estava delirando. Ele não estava. Adam Bell acabou perseguindo por um momento a vida de seu sósia, o ator Anthony St. Claire e chegando até ele. E quando este fato se dá o longa evolui de maneira impressionante, onde o expectador poderá se confundir facilmente.

O filme apela para um tom contínuo pastel e amarelado, uma sépia deslumbrante, contrastando com a fotografia competente de belas imagens urbanas. Os figurinos das personagens também se intercalam com essa beleza e suas tonalidades seguem o padrão proposto pelo conjunto da obra. Em questão de estética, é quase perfeito. Villeneuve constrói este suspense de forma primorosa, seja pela sua montagem ágil desafiando o expectador a descobrir o que irá acontecer ou pelo clima quase silencioso e sombrio. Aliás, quem faz o filme na verdade é quem o assiste, pois deverá ser este quem questionará o núcleo central da história, será este quem irá deduzir o que pode estar ocorrendo, será este que irá elaborar uma teoria acerca do enredo. Adam Bell estaria louco? Ele e Anthony seriam a mesma pessoa? Tudo o que vemos parecer real na verdade não é nada daquilo que pensávamos? Com o longa, tudo isso vem à tona.

O grande trunfo da obra em minha humilde opinião é a grandiosa e surreal aranha que assustadoramente dá um choque a quem está assistindo. Talvez ela carregue muito mais coisa consigo do que se possa imaginar. Alerto que O Homem Duplicado será digerido aos poucos, por isso não se acanhe em desvendar e desfrutar de todas essas possibilidades.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.