12
ago
2014
Crítica: “Tatuagem”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Tatuagem
Tatuagem
Hilton Lacerda, 2013
Roteiro: Hilton Lacerda
Imovision

4.5

A arte, além de imortalizar, também tem um papel fundamental para dialogar com diversos meios. E a arte não precisa sempre ser bonitinha para ser apreciada, as vezes quanto mais transgressor, mais interessante. O diretor Hilton Lacerda encontrou diversos temas diferentes em um único longa. Tatuagem tem uma abordagem totalmente provocativa e inovadora, pois trata de alguns assuntos que revelam tabus da sociedade com ampla delicadeza.

Clécio (Irandhir fucking ótimo Santos) é quem administra a trupe Chão de Estrelas, uma companhia teatral formada por membros que acreditam convictamente na frase “sou de todo mundo e todo mundo é meu também”. Ele é homossexual, criativo e tem um filho com Deusa (Sylvia Prado).

Fininha (Jesuíta Barbosa) é um jovem soldado que sofre um pouco de opressão no quartel onde serve o exército. Mesmo assim, ele acaba não criando confusão com os companheiros de convivência e fica sempre na sua. Até que um dia, Fininha é encarregado de levar uma encomenda a Paulete (Rodrigo García) na casa de espetáculos do Chão de Estrelas e por lá acaba conhecendo Clécio. Logo, os dois acabam se entregando a uma noite cheia de descobertas. Obviamente, o então soldado acaba passando a frequentar a casa com frequência.

Imagine agora: a história se passa em 1978 e o Brasil passava pelo período da ditadura militar, onde diversos espetáculos, obras literárias e filmes eram duramente censurados. Aqui temos uma de repressão pela censura quando o espetáculo é proibido de ser feito. Mesmo recorrendo de todos os modos, eles são impedidos e nem por isso ficam calados, provocando a ira dos militares que acabam por domar os destinos de certos personagens. Aliás, o Chão de Estrelas é tão provocativo nesse ponto chegando a gerar até certa aflição por parte da plateia.

O roteiro brilhante de Lacerda tem outros pontos muito interessantes. Em dado momento, Fininha assume ter participado de uma ação militar onde reprimiu diversos grupos diferentes, após ser questionado por Clécio. Aqui temos a desconstrução de um personagem cumprindo ordens que nem sempre condizem com sua vontade e que tirando sua farda demonstra toda sua humanidade, revelando seu amor pela arte e pela vontade de ser livre. Paulete é um outro destaque do longa, um irreverente e engraçado artista do Chão de Estrelas, que apesar de algumas derrapadas com o grupo, proporciona ao expectador uma boa dose de humor e sarcasmo.

A propósito, o longa não seria tão deslumbrante sem o seu criativo elenco ou sem a grande entrega de cada um deste grupo à arte. Todos possuem uma harmonia impressionante em cena. São atores afiados representando diálogos cheios de irreverência e deboche. É também totalmente sem pudores e, não se espante pelas cenas de nudez dos artistas em cena no Chão de Estrelas. Divertido, provocante, ousado e uma verdadeira raridade. Vida longa ao cinema pernambucano!

Imperdível: Tatuagem fica em cartaz no Cine Com-Tour UEL em Londrina até 13/08. As sessões são diárias sempre às 20h30. Ingressos a partir de R$ 6,00.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.