21
ago
2014
Crítica: “Wall-e” – MARATONA PIXAR #9
Categorias: Críticas, Maratona Pixar • Postado por: Victor Hugo
Wall-e
Andrew Stanton, 2008
Roteiro: Andrew Stanton e Pete Docter, Jim Reardon
Walt Disney Pictures

5

Acho que essa vai ser provavelmente a crítica mais difícil que já fiz e vou fazer em anos, pois fala de um filme com o qual eu tenho uma relação tão íntima de afeto e amor, que posso dizer sem nenhuma hesitação, que trata-se de uma das melhores obras de toda a história do cinema! Com certeza o maior longa de animação de todos os tempos, e estou falando desta obra-prima chamada Wall-e (2008). O que mais pode se esperar de um filme que mistura 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968), Charles Chaplin, Alô, Dolly! (Hello Dolly, 1969) e inúmeras homenagens ao cinema mudo? Com certeza o mínimo que se espera é uma experiência inesquecível.

O mais difícil de falar sobre algo tão sublime quanto esse filme (que aliás, com seu modesto Oscar de Melhor Animação é um ótimo exemplo de como a Academia não é o melhor patamar de qualidade que podemos ter) não é o medo de super ou subestimar a produção de Andrew Stanton, e sim o medo de não saber articular todas as infinitas qualidades da obra como um todo em um texto. E aqui já vale dizer, que sou estudante de Geografia, então provavelmente meu olhar sobre esse filme é um pouco particular no aspecto ambiental e espacial.

Somos introduzidos ao filme de uma forma extremamente irônica, com uma música alegre de Alô, Dolly!, enquanto conhecemos um mundo assolado pela poluição e totalmente desabitado, sem nem sequer um resquício de verde ou vida. É nesse futuro terrível em que conhecemos o robô Wall-e, um compactador de lixo que todos os dias empilha milhares de cubos. Mas ao contrário do que é de esperar, Wall-e guarda tudo o que acha interessante em sua mochila, e guarda no lugar onde mora. Pelo que sabemos, ele é o único robô que sobrou, de um projeto de limpeza do planeta que prometia levar os humanos em segurança em uma nave espacial enquanto os Wall-e’s limpavam a sujeira, o que é claro, aparentemente não deu muito certo.

Certo dia, um foguete chega a Terra e deixa uma robô de alta tecnologia, que depois de muito nervosismo da parte de Wall-e, descobrimos que se chama Eva, e tem uma missão sigilosa que consiste em escanear vários lugares em busca de alguma coisa misteriosa. O compactador de lixo então a leva para sua casa para protegê-la de uma tempestade, e lá dentro ela acha o que tanto procurava: Uma planta. Depois de encontra-la, Eva entra em um estado de hibernação que deixa Wall-e desesperado em reativá-la, e assim acaba se apaixonando pela robozinha, e a seguindo-a posteriormente até o lugar de onde ela veio: A nave onde os humanos viviam.

Lá encontramos uma realidade que nos leva a comparar a futilidade daquela vida com a qual estamos nos encaminhando: Os humanos são todos obesos, ao ponto de não saberem mais como andar, não se comunicam a não ser no mundo virtual, e por causa disso não são capazes nem de perceber como é o mundo que os cerca. Não muito diferente a nossa vida cotidiana não é mesmo? Se não é a sociedade que temos, com certeza é a qual estamos a caminho.

Esses olhares extremamente críticos sobre o lugar que vivemos, o modo como vivemos e principalmente sobre a forma como cuidamos de nosso ambiente é na verdade uma das questões mais básicas desse filme. A maior genialidade porém deste longa, é a capacidade inacreditável de Stanton em conseguir criar nesse ambiente completamente distópico uma história de amor entre dois robôs, que horas são até mesmo os antagonistas da história. Sim, inteligência artificial é uma discussão ética que percorre todo o filme.

Wall-e é uma forma linda de homenagear o Vagabundo de Chaplin, com seus olhos tristes e seu jeito desajeitado, se apaixonando pela garota que com certeza é areia demais para seu caminhãozinho, ou melhor, lixo demais para seu compactador (?). Comparações a parte, essa animação consegue homenagear o cinema da mesma forma com que consegue nos apresentar uma forma totalmente diferente e nova de se conversar com o público. A versatilidade do filme que transita entre o cinema mudo e o falado, entre a beleza e o horror, entre o futuro e o presente, entre o amor e o poder, faz com que nossa mente se abra para discussões que apesar de não estarem explícitas, são tão importantes quanto as implícitas a essa narrativa.

A antropomorfismo dos robôs em geral é o que nos torna capaz de termos um relacionamento tão íntimo com os personagens que muitas vezes são mais humanos que os que realmente deveriam ser, outro fator que pode servir para nos levar a pensar.

Esse é com certeza o ícone principal da fase adulta da Pixar, principalmente por tratar de assuntos tão adultos e pesados, que fica difícil as crianças se comunicarem com o mesmo, e isso com certeza não é nenhum defeito do filme, é apenas a prova de que a produtora se reinventou de formas ousadamente inimagináveis, elevando seu público a um olhar crítico sobre a sociedade e o meio-ambiente, contando uma história de amor.

A única coisa que consigo fazer depois dessa análise é agradecer imensamente às 3 cabeças por trás deste que para mim é a obra prima da produtora. Obrigado por nos dar um olhar que jamais se esperaria de uma animação como essa.

Amanhã teremos mais uma crítica difícil de se fazer: ‘Up – Altas Aventuras‘, não percam!



Lorde Vampírico e Geográfico das trevas, ex-ditador dessa pocilga, aspirante a escritor e a web-designer, twilighter, beatlemaniaco, parawhore, narniano e, é claro, cinéfilo. Hoje me resumo à vice-presidente do site. Amém irmãos? Amém.