01
set
2014
Crítica: “Getúlio”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Getúlio
João Jardim, 2014
Roteiro: George Moura, Tereza Frota e João Jardim
Copacabana Filmes

3

Brasil, 24 de agosto de 1954. Getúlio Vargas sai desta vida para entrar na história. Um político que governou o país em momentos distintos: Em 15 anos ininterruptos (1930-1945) divido em 3 fases: de 1930-1934, com o Governo Provisório; de 1934-1937 como Presidente da República do Governo Constitucional, tendo sido eleito presidente da república pela Assembleia Nacional Constituinte de 1934; e 1937-1945, governou como um presidente-ditador, durante o Estado Novo implantado após um golpe de estado. Posteriormente foi eleito por voto direto, governando o Brasil por 3 anos até sua morte. O filme de João Jardim centra-se nesses últimos dias e às razões que o levaram ao suicídio.

O longa, claramente trata-se de uma cine-biografia de Getúlio Vargas (Tony Ramos), percorrendo as ocorrências dos dezenove últimos dias de sua vida, período em que o mesmo se isolou no Palácio do Catete, enquanto seus opositores o acusavam de ser o mandante do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges) que sai deste episódio com um tiro no pé. Este atentado é reproduzido logo nos minutos iniciais prendendo o espectador por seu ritmo frenético. Apesar deste bom começo, o roteiro vai confundindo o espectador aos poucos com a quantidade de fatos e personagens que vão sendo apresentados.

Um artifício para driblar eventuais confusões foi usado em diversas cenas, nomeando cada novo personagem que entrava na trama através de uma legenda. O recurso foi bem utilizado e serviu bem para tapar algumas falhas que foram deixadas pelo roteiro. Roteiro este, que teve uma boa base, afinal durante os últimos dezenove dias de Getúlio ocorreram diversos reviravoltas, conflitos e tensões políticas. Devo alertar: Ao assistir o longa, praticamente pegamos o bonde andando, pois somos jogados em um contexto que vai sendo explicado aos poucos.

É inegável que Tony Ramos tenha desempenhado um ótimo trabalho, assim como Drica Moraes que vive Alzira, filha de Getúlio. Personagem que tem grande destaque na obra. A produção do longa não deixou a desejar em caracterização, pois boa parte do elenco, além de ter boa semelhança física com quem representavam, também pareciam ter “nascido” para desempenhar tais funções a que estavam submetidos em cena. No quesito elenco, João Jardim teve ótimos parceiros de equipe. O mesmo conduz de maneira consistente todas as cenas, sua experiência na construção de documentários deve ter ajudado. Com fotografia ousada, sua direção de arte capricha recriando cenários, figurinos e paisagens. Os enquadramentos são precisos e provocam tensões particulares aos espectadores. O tom de velhice nas imagens e as cores fortes também são identificados com clareza, o que dá um tom belíssimo a todo o conjunto da obra.

Poucas cenas são externas, a maioria, obviamente por conta do enredo, se dá dentro do Palácio do Catete. Um cenário importante dentro do contexto do filme que também tem algumas boas sacadas de câmera, como quando ela parece estar escondida e captando eventuais segredos. Todos esses recursos são bem montados no final para se compreender, que além de tudo aquilo que já havia sido apresentado, o objetivo de Jardim e de Moura fosse de mostrar um lado totalmente humano do protagonista. Não é à toa que em várias situações, temos um Getúlio por vezes distante, por vezes atento, por vezes receoso e preocupado. Talvez o grande trunfo da obra esteja concentrado nessas cenas e ocorrências. A política brasileira também é um ponto interessante tocado pelo roteiro e seu desfecho é um dos pontos altos.

Com a importante figura histórica do século passado, cenas bem centradas, personagens bem caracterizados, atores competentes, direção de arte e fotografia bem colocadas e uma boa e dinâmica aula de história, Getúlio poderia ser melhor em vários aspectos, biografias são um desafio e tanto para serem feitas, já falei sobre isso em outra crítica. Mas contudo, merece ser visto em várias ocasiões por diversos motivos.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.