27
set
2014
Crítica: “Praia do Futuro”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Praia do Futuro
Praia do Futuro
Karim Aïnouz, 2014
Roteiro: Felipe Bragança e Karim Aïnouz
California Filmes

4

Praia do Futuro é um longa feito para ser imperfeito. É cheio de histórias densas, cheio de dramas coesos e, principalmente, cheio de aspectos curiosos dentro do cinema. Talvez seja um conjunto de experimentações. O longa é dividido em três partes nomeadas. Letras coloridas e chamativas vão surgindo à tela para que o espectador saiba onde está se metendo. Funciona em tese, pois em algumas dessas partes o desenvolvimento narrativo não é tão enriquecedor quanto em outros. É como ter uma parte grandiosa e outra não tão grandiosa dentro de um mesmo roteiro. Sua introdução se dá com motocicletas e turbinas eólicas em meio à dunas deslumbrantes.

Acompanhamos a vida de Donato (Wagner Moura), um salva-vidas bastante competente que ao não conseguir salvar um turista de um afogamento acaba se aproximando mais de seu melhor amigo. Os dois se apaixonam e impulsionado por este amigo, Konrad (Clemens Schick), Donato viaja com ele para Alemanha, onde passam a viver juntos. O conflito acontece por conta de Ayrton (Jesuíta Barbosa), irmão mais novo de Donato que se vê abandonado por seu grande heroi. Anos mais tarde os dois se reencontram na Alemanha em cenas maravilhosamente bem feitas. O diretor, Karim Aïnouz dosa exímiamente os dramas antes inseridos, ignora qualquer tipo de frase desconexa no contexto deixando que as ações falem mais que meras palavras. É um distanciamento curioso e por vezes já visto em outras obras do mesmo, mas dessa vez as cenas são diferentes, tendo intensidade diferente e uma frieza diferente.

Aïnouz é um diretor frio e com um estilo interessante a ser observado. Diversas cenas são construídas com a mesma agilidade e seu distanciamento, algo já visto e percebido em Madame Satã (2002), O Céu de Suely (2006) e O Abismo Prateado (2011). É como se ele deixasse a câmera enquadrada captando tudo o que passa por sua frente, mesmo que parte da ação não aconteça naquele quadro e permitisse que tudo se desenvolva dentro deste plano sem intervenções. Em Praia do Futuro isso acontece na maioria das vezes, mas aqui vemos um diretor também bastante preocupado em mostrar a adrenalina interna e externa de cada personagem. Uma outra coisa que chama bastante a atenção no desenvolvimento que Aïnouz tem em seus filmes, é que ele sempre deixa seus personagens seguirem adiante e, portanto, suas cenas finais são bastante curiosas, além de serem quase sempre muito belas, deixando muito ao espectador.

A intensidade de cada cena exposta é visceral e também brutal. Os personagens brigam, sofrem, choram, transam; tudo com uma intensidade exacerbada, mas que funciona muito bem dentro do contexto da história. O reencontro dos irmãos é emocionante e também amplamente interessante, pois Donato e Ayrton ao mesmo tempo que querem se bater estão aptos a se abraçar e conversar sobre o que acontecera no período em que passaram distantes. Condições impulsivas e por ora difíceis de se compreender, nada que nos atrapalhe para as conclusões que temos do longa. Konrad e Donato vivem uma relação complicada em vários momentos, em outros temos um casal apto a fazer descobertas e também a amar livremente. O mais incrível na construção narrativa do filme é que o diretor não induz o espectador a gostar de qualquer personagem que seja. Todos são apresentados de forma crua e distante, o espectador precisará estar disposto a mergulhar de cabeça em cada uma de suas histórias para se deliciar com cada detalhe. Desta forma, escolhemos por quem queremos torcer, tendo em mente que nenhum ponto de vista foi defendido anteriormente. Donato estava certo ou errado em abandonar sua família para ir em busca de uma grande paixão? Ayrton estava certo em fazer o que fez quando reencontra o irmão?

Contudo, é um filme muito belo em sua composição visual, com várias paisagens bem enquadradas, cores também muito intensas, mesmo que em sua maioria sejam frias. E aqui mais uma coisa em comum com o caráter da direção. A ação e o drama; o real e o irreal. Tudo está junto compondo um cenário rico e amplo a ser explorado. O filme funciona muito, mas muito bem no que se propõe!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.