15
out
2014
Crítica: “Boyhood: Da Infância à Juventude”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2015 • Postado por: Matheus Benjamin
Boyhood
Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood)
Richard Linklater, 2014
Roteiro: Richard Linklater
Universal Pictures do Brasil

4.5

A premissa de Boyhood não tem nada de inovador. Iremos acompanhar a vida de um garoto de sua infância por volta dos 7-8 anos até a adolescência quando ele já está indo pra faculdade. Não seria, de fato, inovador se o longa não tivesse sido desenvolvido por cerca de doze anos. Com esse projeto ousado e bastante arriscado nas mãos, o diretor Richard Linklater construiu uma trama delicada, mas também muito ampla, com personagens muito reais e situações cotidianas. O resultado foi um belíssimo filme, verdadeira obra prima, que apesar de longo, passa em um piscar de olhos. Doze anos que se vão rapidamente, assim como a vida.

Em sua bagagem, Linklater tem filmes como Escola de Rock (2003), A Scanner Darkly (2005) e a trilogia Antes do Amanhecer (1995). Pode-se notar que é um diretor que sabe dosar tudo o que tem ao seu alcance na medida certa sem cair nos velhos clichês. No projeto ousado que possuiu em suas mãos ao longo desses doze anos, filmando secretamente algumas cenas por ano, vemos diálogos muito inteligentes, cenas bem montadas e verossímeis, além de um roteiro bem narrado com dramas intrínsecos e momentos cômicos, dando ainda mais leveza à obra.

No longa, acompanha-se a vida do garoto Mason (Ellar Coltrane) e sua família, incluindo a irmã Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor), o pai (Ethan Hawke) e a mãe Olivia (Patricia Arquette), que vivem separados. No começo, nota-se que os seus pais não são quase nenhum pouco amigáveis e também que a relação que ambos têm com seus filhos se dá de forma calma e tranquila, mesmo que não se dêem bem quando se encontram. Além das crianças, também vê-se muito sobre o amadurecimento dessas figuras que poderiam passar despercebidas em outros roteiros. Um fato curioso sobre isso é que diversos personagens vão sendo inseridos na trama e logo retirados tão facilmente quanto entraram. Estes jamais voltam à cena mostrando que a vida tem muito dessas coisas. Pessoas passageiras que vêm e que vão, que podem até marcar mas que não voltam e deixarão saudades, focando apenas nos bons momentos. O roteiro e a direção são completamente coesos e bem casados ao tratar do que propõem, ficando ainda mais claro durante esses pequenos momentos. Aliás, a direção de Linklater é focada na admiração de seus personagens, usando uma câmera quase que escondida em determinados instantes; em outros parece que é um velho amigo retratando momentos especiais. Portanto, seu caráter na direção é percebido com delicadeza. Sua intenção talvez fosse mostrar imagens que transpassassem à tela algo incrivelmente natural.

Acompanha-se o desenvolvimento de Mason e suas relações com os pais e a irmã; temos um foco também em suas amizades e companhias que faz durante as vezes em que se muda e viaja, além de seu amadurecimento e escolhas de vida. Seus pais também fazem inúmeras escolhas, trocam de companheiros e até surgem com novos ideais. A bondade e outros valores de cada um deles são passados de forma incrível ao espectador. O longa também é curioso por suas inúmeras referências extraordinárias à cultura pop e, obviamente por conta disso, podemos perceber que o roteiro foi sendo adaptado aos poucos conforme novos lançamentos de filmes e livros ocorriam. O que se vê são diálogos acerca da febre da Saga Crepúsculo, o lançamento do sexto livro de Harry Potter (além de uma mãe que gosta de ler essa história para os filhos), vídeo games famosos, Dragon Ball Z entre outras sagas e músicas marcantes, também dando certa pincelada em momentos históricos importantes. Essa sensação de nostalgia presente em várias cenas, faz do longa ainda mais especial, sendo doce e delicado em todos esses momentos.

A trilha sonora é composta por várias músicas conhecidas e também nostálgicas. Temos Coldplay, Arcade Fire, Beatles, Pink Floyd, Wilco, Kings of Leon, Black Keys entre outros nomes. O foco de Linklater foi o cotidiano, as cenas comuns do dia a dia, por vezes não tão comuns, mas de forma geral muito humanas e corriqueiras. Boyhood se torna especial por conta de suas ideias e situações serem de fácil identificação com o público. Um menino que não tem nada de extraordinário mas que demonstra que as pequenas coisas podem torná-lo extraordinário. Tudo é tão bem amarrado e inserido na trama que até as passagens de tempo tornam-se sutis e bastante impiedosas.

No fim, quase emocionados, podemos constatar algumas coisas com relação ao longa e o feito corajoso e interessante de Linklater: O filme, apesar de longo, passa num instante abordando de maneira indireta (ou talvez direta) que a vida é passageira e que também passa em um piscar de olhos. E esta é uma bela ligação que deixa o espectador com um sorriso no rosto após os créditos subirem, um feito extraordinário para um projeto tão intenso. Quando acaba, estamos querendo mais; querendo que o diretor não pare de filmar essa linda e cativante história.

Boyhood só estreia em 30 de Outubro no Brasil, então não percam essa maravilhosa obra na grande tela. Faço também algumas apostas a acredito que certamente o filme será indicado ao Oscar em 2015. Vamos aguardar!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.