04
out
2014
Crítica: “O Lobo Atrás da Porta”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
O Lobo Atrás da Porta
Fernando Coimbra, 2013
Roteiro: Fernando Coimbra
Imagem Filmes

4.5

Fernando Coimbra estreou magistralmente bem com seu primeiro longa de ficção que escreveu e dirigiu. O Lobo Atrás da Porta é uma peça importante e rara dentro do cinema nacional, inovando em quase todos os aspectos. A narrativa é permeada de flashbacks que acompanham depoimentos a um delegado de polícia sobre o desaparecimento de uma criança de 6 anos. Os interrogados são a mãe da criança, Sylvia (Fabíula Nascimento), o pai da criança, Bernardo (Milhem Cortaz) e a amante do pai, Rosa (Leandra Leal). Enquanto todos respondem a perguntas do tal delegado (Juliano Cazarré), o espectador pode perceber que cada um deles esconde alguma coisa de sua versão dos fatos, tentando enrolar a investigação e mentindo quando possível. Os flashbacks ilustram de maneira firme e consistente tudo o que cada um deles está falando, seja verdade ou seja mentira.

Essa narrativa ágil do início ajuda na construção do longa que vai se desenvolvendo de forma frenética. O delegado logo percebe que Rosa está blefando e pressionada, passa a contar tudo o que realmente acontecera de fato. Desta forma, cessam as interrupções e acompanha-se do instante em que Bernardo e Rosa se conhecem até o momento presente do depoimento. O roteiro de Coimbra enganará o espectador em diversos momentos, fazendo o mesmo participar de tudo, de certa forma, questionando e levantando hipóteses. As exímias atuações de absolutamente todo o elenco deixam tudo mais convincente e coeso. Os dramas dos personagens ganham força, os conflitos não soam inverossímeis e as situações são bem amarradas, mesmo que em parte sejam complexas.

Leandra Leal está em uma das melhores atuações de sua carreira. Com uma personagem forte, decidida e desafiadora, prova de uma vez por todas que é uma das melhores atrizes do nosso cinema, brincando com sua personagem nos momentos oportunos, dando dramaticidade na medida em outros e, sobretudo, seus olhares e ações são maravilhosamente bem mostrados conforme o roteiro manda, enganando muito bem a quem quer que seja. Fabíula Nascimento também tem uma interpretação incrível, como em todos os seus trabalhos, mesmo que em alguns a história não ajude. Aqui ela se encontra com uma boa direção e faz o que sabe de melhor. Milhem Cortaz também é ótimo na pele de um fiscal de uma companhia de transportes públicos, convencendo muito nos momentos mais tensos de um marido quase desesperado por esconder a verdade de sua esposa. É preciso mencionar também a atuação de Thalita Carauta que vive uma suposta “Bete”. Em suas duas únicas cenas, apesar dos pesares, consegue transpor leveza e deixar o clima mais ameno. Beira o cômico, se não fosse também trágico.

É preciso ter em mente que para entender como de fato ocorreu o sequestro, o espectador precisará passar por absolutamente tudo na história. Uma rede bem amarrada de intrigas, ciúmes exacerbados, vinganças atrozes e crimes passionais. Tudo é exibido sem remorsos e de forma, como já anteriormente mencionada, ágil. Os personagens protagonizam situações cotidianas e também de loucura, de amor e de ódio. Ambos os lados são cruéis e desumanos; ambos os lados mentem e sabem articular jogadas a seu favor. Todos são “humanos” com erros e acertos e seus conflitos beiram o delírio. A partir de determinada ação, o clima sombrio invade a tela e deixa o espectador aflito.

Apesar de parecer previsível, o desfecho consegue surpreender e chocar também de uma forma geral. Em certos momentos, me lembrei de Seven (David Fincher, 1995) pelo tom cruel e brutal da capacidade humana de ser. Devo dizer que Coimbra também foi feliz ao retratar pessoas que aparentemente são inofensivas, mas que com alguns cutuques em certas feridas demonstram todas as suas artimanhas. São truques bem elaborados e orquestrados com êxito e precisão, principalmente porque seu diretor foca diretamente em rostos, mãos, olhos, boca das personagens, em planos fechados, que sufocam de certa forma, ocultando cenários e ações à volta. Uma das cenas mais importantes do longa é enquadrada nos rostos firmes dos atores e narrada apenas com a única câmera ali.

Vale ressaltar novamente que Fernando Coimbra construiu um longa consistente, com qualidade técnica e qualidade narrativa na medida certa. Tem simbolismos ao fazer uma brincadeira com a história de Chapéuzinho Vermelho imaginando um lobo mau que aterroriza a criancinha inocente; tem dramas, mas também situações cômicas; tem personagens intrigantes, atores bem dirigidos e em ótimas interpretações, além de situações bem arquitetadas. O Lobo Atrás da Porta é um filme chocante, eletrizante e, sobretudo, macabro. Merece (e muito) a atenção de todos os espectadores, amantes de histórias do tipo ou não.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.