22
out
2014
Crítica: “Trash – A Esperança Vem do Lixo”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Trash
Trash – A Esperança Vem do Lixo
Stephen Daldry, 2014
Roteiro: Richard Curtis, Andy Mulligan e Felipe Braga
Universal Pictures

2.5

O diretor Stephen Daldry (de O Leitor, Billy Elliot, As Horas), em seu mais recente longa, baseou-se no livro homônimo de Andy Mulligan, cuja obra fala de um país fictício com várias semelhanças a diversos outros países como Brasil ou Índia. Daldry acabou escolhendo o cenário tupiniquim para contar essa história. E, de forma, até interessante.

Acompanharemos a história de três meninos Rafael, Gardo e Rato (Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein, respectivamente) que acabam entrando em uma confusão por conta de uma carteira achada no lixão e vários mistérios acerca dela. O filme começa pelo fim e depois passa a narrar como a tal carteira fora parar no lugar onde os meninos a encontraram. Além disso, temos cortes diretos para uma espécie de documentário onde os meninos dão seus depoimentos a frente de uma câmera, ajudando a entender melhor toda a história. José Angelo (Wagner Moura) é o motivo de toda a intrincada trama apresentada no longa, tendo em vista que o mesmo deixou inúmeros códigos e segredos na carteira que atira ao caminhão do lixo enquanto a polícia o captura.

Uma das críticas utilizadas no roteiro de Richard Curtis, com a ajuda de Andy Mulligan (autor do livro) e do brasileiro Felipe Braga é à corrupção de uma forma geral; tanto na política, quanto na polícia que é sustentada por homens bastante poderosos. Aliás, a presença de Braga na elaboração do roteiro contribuiu bastante para fortalecer os diálogos e enriquecer ainda mais as ações. Este roteiro tem inúmeras falhas e incongruências que podem até passar despercebidas quando vemos uma história ainda maior por trás dela e, mesmo que esta história encubra tais falhas, algumas são totalmente descaradas e sem sentido. Em dado momento, as crianças fazem um atalho para chegar na estação de trem, mas isso não era necessário a não ser que o diretor quisesse que Jesuíta Barbosa fizesse uma ponta no longa (como fez maravilhosamente bem), mesmo que em um contexto completamente desnecessário. Além desta incongruência narrativa, o tio de José Angelo, Clemente (Nelson Xavier) se perde com o passar da história mesmo que sua presença ali não seja explicada nos mínimos detalhes. E para citar mais um exemplo, as informações mais importantes para a compreensão da história são dadas por um funcionário da casa do candidato à prefeitura, quando este faz amizade rapidamente com os garotos que estavam invadindo a propriedade.

O elenco tem nomes importantes e que desempenharam seus papeis com muita competência. Os estrangeiros Juilliard (Martin Sheen) e Olivia (Rooney Mara) são tecnicamente os responsáveis por essas crianças sem pais ou qualquer tipo de zelo e os atores foram bem escolhidos, aliás algumas cenas iniciais ajudam a entender como aqueles garotos que nem sabiam ler direito conseguiram compreender certos detalhes dos enigmas apresentados. O trio de protagonistas foi escolhido em meio a várias outras crianças e provaram em suas falas apuradas e cheias de gírias verossímeis que têm um grande potencial. Vale mencionar que sempre vemos mundo afora vários diálogos caricatos quando se envolve crianças e adolescentes, mas em Trash isso não acontece, felizmente. Por vezes o filme também é bastante dramático e brutal, principalmente por conta do personagem de Selton Mello. O espectador sente e sofre a cada nova ordem violenta do mesmo a seus capangas.

O longa ainda possui uma trilha sonora interessante com várias músicas conhecidas pelo grande público entre elas o funk Eu só Quero é ser Feliz. A direção de arte foi muito feliz no desenvolvimento do lixão, tornando-o ainda mais verossímil e dramático com suas cores vibrantes. E, incrivelmente, os cartões postais do Rio de Janeiro são praticamente esquecidos durante a história, uma coisa interessante de se analisar, mostrando que Daldry conseguiu ir além de tudo isso.

Ainda que seu desfecho pareça um tanto quanto indefinido para diversas personagens e existam várias incongruências narrativas, Trash consegue deixar o espectador aflito, consegue amarrar algumas pontas soltas em últimos instantes e proporciona certa diversão a quem quer que seja, mesmo que seu roteiro tenha inúmeras falhas.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.