22
nov
2014
Crítica: “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1”
Categorias: Críticas • Postado por: Victor Hugo
Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (The Hunger Games: Mockingjay – Part 1)
Francis Lawrence, 2014
Roteiro: Peter Craige, Danny Strong
Paris Filmes

4.5

Quando paramos para pensar na série Jogos Vorazes como uma alegoria, ou seja, como uma crítica à sociedade contemporânea e aos riscos que ela nos leva, isso com certeza já é mais do que suficiente para qualquer gasto com ingresso valer a pena. O que chama a atenção aqui, é como tal série consegue fazer isso sendo apenas uma franquia adolescente que vende milhões por todo o mundo.

Uma das respostas, está é claro no imenso apelo comercial que a bravura de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) evoca. Mulheres belas, porém fortes, vendem. Vendem muito bem. Mas além desse apelo e de todo o alvoroço por ‘Team Gale’ ou ‘Team Peeta’, que se prova como uma cicatriz da geração passada de franquias, é a relação muito forte que essa incrível história consegue estabelecer entre a guerra e tudo que é simples, humilde e singelo, e é isso que me fascina nessa série.

O filme inicial, Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012) tem uma atmosfera azulada e sombria, que nos introduz a um universo onde a extravagância e os padrões de beleza são para poucos moradores da imponente  Capital. Essa imagem se desconstrói no segundo (The Hunger Games: Catching Fire, 2013) que se dedica a mostrar que “Todo sistema tem uma falha” como Beetee (Jeffrey Wright) diz tão bem. O que ambos tinham em comum porém era o reality-show. A mídia como forma de alienação e nada além disso.

Esse é um filme sobre a publicidade. Sobre propaganda política e sobre o poder dos meios de comunicação em nos alertar, nos elevar a causas que podem definir a nossa vida. E pelo tamanho da introdução, já aviso que essa será uma crítica grande.

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (The Hunger Games: Mockingjay – Part 1) parte de uma Katniss frágil e assustada, incapaz até mesmo de se esconder no grandioso e anteriormente dado como extinto, Distrito 13. Um abrigo militar debaixo da terra onde a ordem e o racionamento são as únicas formas de sobrevivência. Além de Katniss, Finnick (Sam Clafin) também remói as amargas lembranças dos últimos Jogos Quartenários, e principalmente a dor te ter sua namorada Annie (Stef Dawson) capturada pela Capital, assim como Peeta (Josh Hutcherson).

Nesse novo cenário acinzentado controlado pela Presidenta Coin (Julianne Moore), o clima de guerra é constante, e o fervor pela causa da revolução é o que move a vida de todo o o Distrito. Gale (Liam Hemsworth), o responsável pelas poucas centenas que se salvaram da destruição do Distrito 12, se identifica com esse fervor e logo descobrimos que ele se juntou as forças armadas rebeldes. É esse o sentimento construído ao longo de todo o filme, um sentimento de uma guerra que estava apenas em seu começo, e aqui entra a incrível interpretação de Jennifer construindo a imagem do símbolo da revolução. O Tordo.

Quem também tem papéis secundários mais importantes na história são o mentor dos tributos, Haymitch (Woody Harrelson) e a antes extravagante da Capital, Effie (Elizabeth Banks). Ambos são os maiores símbolos de adaptação que o filme recorre, um por ter que se manter sóbrio, já que costumava ser um beberrão nos filmes anteriores, e uma por ter que aceitar seu papel como nova cidadã de um lugar que nunca quis ser.

Apesar de Coin ser a grande líder que guia o Distrito com o amor de seu povo, Plutarch, incrivelmente interpretado por Philip Seymour Hoffman, usa toda sua habilidade como ‘vendedor de ideias’ para manipular algumas decisões da presidenta de uma forma que inicialmente parece positiva. Apesar da homenagem ao grande ator falecido ano passado, as interpretações de uma forma geral são muito bem executadas e concisas, corroborando com o tom da produção.

O desenvolvimento do filme tem um ritmo muito cuidadoso, e com cuidadoso, quero dizer que não se trata de um filme lento, afinal temos uma guerra acontecendo, mas também não se trata de um filme esquizofrênico onde o sangue jorra a cada segundo e como o cinema Mainstream gosta tanto de fazer. O equilíbrio estabelecido de forma tão habilidosa por Francis Lawrence permite a essa história alguns poucos momentos de contemplação. Contemplação dos sentimentos de cada um dos personagens e até mesmo contemplação da natureza que é tão importante para a protagonista, e é isso que faz dessa série tão fascinante para mim. A fotografia e a direção de arte são muito parecidas ao filme anterior, e uma prova de que isso é uma ótima característica é a cena que temos Katniss descendo no Distrito 12 e as paletas ficando subitamente azuladas como no primeiro filme.

Mas o grande protagonista, repito, é a mídia. Plutarch quer vender a imagem de uma heroína com Katniss, quando na verdade ela é apenas mais uma rebelde, talvez a primeira de outro distrito além do 13. Quando conhecemos a a história do Tordo – animal – como um todo, entendemos porque Katniss é sempre comparada ao pássaro, e aqui vale uma pequena informação para os não leitores da série.

Durante ‘Os Dias Sombrios’, ou seja, a Guerra que criou os Jogos Vorazes, a Capital criou pássaros capazes de repetir as mensagens secretas dos distritos e as repassarem até que chegassem a Capital, o que por motivos óbvios não funcionou, sendo assim, foram soltos para que morressem na floresta o que não aconteceu, pois cruzaram-se com tordos comuns e assim repetem alguns sons. Katniss nasceu em um lugar onde todos eram deixados a morrer, onde a morte pela fome era a mais comum das causas mas ela sobreviveu. Assim como o tordo, Katniss foi deixada a morte e mesmo assim aprendeu a sobreviver.

É sobre isso que a série trata, sobre a força não só de uma personagem, mas de todos nós em sobreviver mesmo quando tudo que temos é só a esperança.



Lorde Vampírico e Geográfico das trevas, ex-ditador dessa pocilga, aspirante a escritor e a web-designer, twilighter, beatlemaniaco, parawhore, narniano e, é claro, cinéfilo. Hoje me resumo à vice-presidente do site. Amém irmãos? Amém.