05
dez
2014
Crítica: “Boa Sorte”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
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Boa Sorte
Carolina Jabor, 2014
Roteiro: Jorge e Pedro Furtado
California Filmes

4

Baseado no conto de Jorge Furtado (disponível na íntegra AQUI), que também roteiriza, Boa Sorte é o mais recente trabalho de Carolina Jabor, tendo uma abordagem muito sutil e bem trabalhada comparada ao conto original. E o filme também se sustenta muito bem sem seu material de base, mostrando também destinos e conclusões, mesmo que tudo isso não seja assim tão necessário além de apresentar novas personagens.

É um filme bastante delicado e ao mesmo tempo brutal; busca na simplicidade a melhor maneira de se contar a descoberta do primeiro amor, pelo olhar de um adolescente problemático, por uma mulher mais velha com problemas ainda piores. De certa forma, João (João Pedro Zappa) vive um garoto carente, que encontra no seu “frontal com fanta” uma forma de se refugiar da solidão em que se encontra e, por conta disso, acaba também se apegando ao fato de sua nova melhor amiga Judite (Deborah Secco) estar se aproximando cada vez mais dele. Vale lembrar que João possui um vício frenético ao frontal e Judite sofre com a impiedosa AIDS.

O longa começa com a internação do protagonista em planos alternados nos rostos conflituosos de João e a Doutora Lorena (Cássia Kiss Magro), frente a frente na mesa da médica em uma espécie de interrogatório de admissão. Logo, na clínica, a personagem de Deborah se aproxima de João bastante curiosa e os dois passam a conversar. Também fica claro que ela está há muito tempo naquele lugar por conhecer minuciosamente tudo ao redor, até os enfermeiros que burlam as regras trazendo medicamentos contra-indicados em troca de dinheiro ou aparelhos eletrônicos, entre outras coisas.

Nas conversas com Judite, João acaba se soltando e revelando detalhes de sua vida e de tudo, ou quase tudo, que acontecera até chegarem a aquele momento. Apesar desta demonstrar e deixar claro a todos os instantes que não é um exemplo a ser seguido, alegra o coração do rapaz que nada mais queria além de alguém como ela para poder dividir seus dramas. Além dessa ótima companhia, João também convive com os outros internos e entre eles está o caricato Felipe (Pablo Sanábio), que apesar de seu personagem não ser tão magnífico, consegue desempenhar uma boa atuação. Aliás, o filme é permeado de boas atuações. Os protagonistas desempenham papéis dinâmicos, amplos, expansivos e ao mesmo tempo são tão introspectivos. Deborah Secco teve uma transformação incrível para viver Judite, perdendo alguns quilos; Cássia Kiss Magro é ótima nas poucas cenas em que surge como uma rígida médica, Felipe Camargo e Giséle Fróes também desempenham um bom trabalho vivendo os pais de João e, como não poderia deixar de ser, Fernanda Montenegro se destaca em todas as suas aparições como a avó de Judite. Suas cenas passam firmeza e dramaticidade na medida, já que sua relação com a neta não é das melhores ao mesmo tempo que também não é das piores.

E além disso tudo, as coisa mais impressionantes no filme todo, além das boas atuações de veteranos e novatos, são os planos ousados, diferentes e interessantes de Jabor. Ela consegue colocar o espectador dentro da cabeça de João com maestria em diversas cenas bem narradas e montadas. É como se o espectador pudesse enxergar a aflição do protagonista ou até mesmo o estado em que ele se encontra. Também se vê uma câmera trêmula em alguns momentos; em outros ela está fixa como se o quadro almejado fosse realmente uma pintura, mostrando as personagens até um pouco mais distantes mas ao mesmo tempo bem palpáveis. E uma das outras coisas bacanas no longa está por conta desses personagens estarem em contato direto com o espectador, como se estivesse também conversando com ele.

Construindo um romance terno com a ingenuidade quase exacerbada e irresponsável e também cega de João; das inúmeras tentativas de Judite de se afastar dele por, mais uma vez, não se ver como uma pessoa boa pra ele, a mesma se refugia à sua maneira em seu diário pessoal, onde busca na arte uma forma de ser uma pessoa melhor, mesmo tendo plena consciência de que talvez isso possa ser impossível. Então o longa confronta a máxima do “quem sou e o que faço por aqui? Qual o propósito de estar aqui?”. Judite sofre da iminência constante de que irá morrer a qualquer momento e, desta forma, irá acabar deixando João ainda pior do que já está. Ela o ensina ao mesmo tempo que não quer se afastar, mas o amor dos dois se torna tão pleno que se torna difícil essa fuga.

Após cair em um velho clichê, que aqui é importante para a trama, uma cena muito bem montada enche o espectador de emoções afloradas. Os planos de Jabor mais uma vez são minuciosamente bem feitos e bonitos aos olhos, sua direção impressiona e surpreende de maneira muito positiva. Tudo isso contrasta da melhor maneira possível com a história que é merecidamente muito bem tratada. Já nos minutos finais, uma animação riquíssima pinta à tela com as percepções de Judite acerca da vida. A única coisa completamente desnecessária é o retorno às memórias passadas, o filme poderia ter terminado bem antes sem tantas conclusões, desta forma, o espectador poderia refletir ainda mais com tudo que fora exposto.

Com uma sensível trama, uma trilha alegre, lindos planos e jogos de câmera condensados com ótimas atuações e revelações para ficar de olho, Boa Sorte é um romance, (sim, um romance) que mostra seus protagonistas das formas mais desajustadas e inusitadas. Não perde para nenhuma estrela culpada que permeou os cinemas neste ano nos mesmos aspectos de construção narrativa, não tem um melodrama tão açucarado, o que é bom, mas também não é livre de defeitos. Mesmo assim, é ótimo naquilo que se propõe.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.