26
dez
2014
Crítica: “Êxodo: Deuses e Reis”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcela Galvão
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Êxodo: Deuses e Reis (Exodus: Gods And Kings)
Ridley Scott, 2014
Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Caine, Steven Zaillian
Fox Filmes

2

Na expectativa de ver uma grande obra, digna de Christian Bale e Ridley Scott, entre outros, e, na esperança de sair maravilhada como saí na obra de Aronosfsky, Noé (Noah, 2014), encontrei-me dentro do cinema no dia de natal. Ora pois, creio que teria sido melhor ter descansado após a ceia (ou ter ido ver o filme do Pelé).

Primeiramente, tenho que admitir que fui enganada pelo trailer com efeitos deslumbrantes e pelo elenco excelente, mas de nada adiantou para a fraca direção de Ridley Scott, cheia de falhas, fazendo com que todos os créditos do filme recaiam sobre os efeitos especiais (coisa que, com o orçamento tido e a tecnologia atual, não é de grande mérito).

Sabe-se que a estreia do filme nos Estados Unidos foi regida por grandes críticas, com a produção do filme sendo acusada de racista, uma vez que todos os atores escolhidos eram brancos, retratando um filme em um lugar e época onde uma parte significante da população era negra. Pra mim, as acusações são de suma frivolidade. Não podemos nos esquecer dos absurdos já ocorridos ao longo do cinema épico, como o aclamado Cleópatra (1963), com a bela Elizabeth Taylor – que traço egípcio algum possuía. Ao meu ver, o elenco foi muito bem escolhido; Scott criou um padrão (ainda que fictício) de homens com peles bronzeadas e olhos claros, e homens com pele um pouco mais clara e traços esguios. Por que….. sinceramente, quem vocês gostariam que tivessem colocado? Denzel Washington no papel de faraó? Oh, por favor.

Entretanto, é uma pena que o elenco tenha sido tão mal aproveitado. Todas as personagens e suas inter-relações são mal aproveitadas. Sigourney Weaver, que aparece no trailer, não passa mais que 5 minutos na tela, e as relações entre os primos/irmãos Moisés e Ramsés, entre eles mesmos e com suas esposas e filhos, soa artificial. Christian Bale ainda tenta desenvolver o papel, demonstrando um Moisés, um escolhido por Deus, nobre, bondoso e responsável, mas com o péssimo roteiro e cenas desnecessárias sua atuação torna-se desgastante. Por outro lado, devo dizer que, como já mencionado, os efeitos especiais carregam todo o filme, mas Joel Edgerton (Ramsés) é a minha nova descoberta favorita. Edgerton (A Hora Mais Escura, 2012 e O Grande Gatsby, 2013) carrega muitas vezes cenas inteiras nas costas com sua excelente atuação – espero vê-lo mais vezes nos cinemas.

O filme ainda, perde muitas oportunidades *spoilers*. Na tentativa de ser menos fantasioso, não há a grande abertura do mar vermelho, mas sim, apresenta umas das teorias aceitas pelos historiadores – a de que haveria bancos de areia ocultos pelo mar expostos devido aos fortes ventos. Ainda, achei desnecessário Deus aparecer na forma de uma criança – teria sido muito mais interessante aparecer um Moisés com possibilidades de estar enlouquecendo, dialogando sozinho. *fim de spoilers*

Agora, falemos um pouco mais sobre o roteiro (o qual estragou a atuação de Bale).

Entendo que nos dias atuais, lançar no cinema um filme como Os 10 Mandamentos (1956), com cerca de 3h de duração, é impossível, mas mesmo assim, Scott, tendo 2h30min à sua disposição, fez com que todo o filme corresse rápido demais, não apresentando de forma sólida uma relação com Ramsés, nem com os hebreus, nem mostrando o sofrimento deste povo, e apresentando apenas uma cena de poucos segundos (uns 7, eu acho, ou menos) de como o povo hebreu, depois de atravessar o Mar Vermelho, caí em pecado. Eu entendo também que os roteiristas dispuseram-se do entendimento que todos já conhecem a história de Moisés, mas, sinceramente, se for pra contar uma história de forma chula, pra que contar?

Êxodo: Deuses e Reis é um perfeito blockbuster de natal – sua fotografia não é artística (algo que, ao meu ver, pode-se unir perfeitamente com filmes direcionados à massa), tampouco bela; os atores, ainda que tentem fazer um bom trabalho, são impedidos pelo ritmo irregular e roteiro bagunçado, com cenas desnecessárias que poderiam ter sido preenchidas por uma hsitoria mais consistente (ou talvez um filme mais curto). E, para nós que assistimos, temos que nos contentar com os belíssimos efeitos gráficos, o design de roupas e arquitetura bem feitos e com as cenas de luta. Mas nós não estamos falando de Michael Bay, estamos falando de Ridley Scott – desculpe, mas eu esperava mais de você.

Êxodo: Deuses e Reis é mais do mesmo.



Fã de Nolan, Kevin Smith e Von Trier. Chora em "Toy Story", assiste Grease toda vez que está passando na televisão e tem pavor de filmes com animais falantes. Torce pra a dominação alien sobre a Terra.É cinéfila e nas horas vagas, estudante de direito.