15
dez
2014
Crítica: “O Congresso Futurista”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcela Galvão
O Congresso Futurista (The Congress)
Ari Folman, 2013
Roteiro: Ari Folman
Imovision

3

Eu primeiramente devo confessar que sou uma grande fã de animações misturadas com filmes e, quando descobri O Congresso Futurista (The Congress, 2013), um filme com temática de ficção científica dirigido e escrito por Ari Folman (diretor do aclamado Valsa com Bashir) baseado na obra de mesmo nome do autor polonês Stanisław Lem (também autor da obra Solaris), não pude deixar de assisti-lo. Com planos no Live Action e na Animação, menções à cultura pop, reflexões sobre a sociedade moderna e o resgate de uma atriz esquecida, pode-se dizer que foi uma boa pedida.

O filme começa de cara com o rosto da nossa atriz principal: aflito, ouvindo duras de ninguém mais, ninguém menos, Harvey Keitel, interpretando o agente da nossa personagem. Mas quem é esta personagem? Esta, meus caros, é Robin Wright. Você se lembra de Robin Wright? Sim! A atriz Robin Wright! Ah…. não? Pois bem: Robin Wright foi a Jenny, de Forrest Gump, e a Claire Underwood de House of Cards. É. O filme começa com Robin Wright ouvindo todos os erros que fez em sua vida e como ela própria afundou sua promissora carreira de atriz. Hoje, Robin Wright vale 2 centavos – este é o valor do contrato que a atriz de filmes B assina para que se torne uma projeção virtual. E é este o ponto de partida do enredo.

Não carecemos de avançar no tempo, hoje mesmo podemos ver: Avatar, O Expresso Polar, A Lenda de Beowulf. Estes foram alguns dos tantos filmes já feitos essencialmente pelo computador, pelas novas tecnologias. Quem duvida que em um futuro não tão distante os atores sejam substituídos por versões suas virtuais? Sem atrasos, discordâncias, quebras de contratos, pausas nas gravações…. Pois bem, Em O congresso Futurista, Robin Wright, já em decadência e precisando de tempo para cuidar de seu filho que sofre de uma doença degenerativa, aceita a proposta. E a partir daí somos apresentados a um mundo novo, à uma matrix não tão abstrata.

Neste futuro, existe dois mundos: o real, como o conhecemos, e o mundo animado: um mundo onde podemos ser, podemos sentir e fazer o que quisermos através de efeitos químicos. E é através da animação que Ari Folman expressa a mutação do mundo real para o “mundo novo”. Devo dizer que a opção do diretor por uma animação tradicional tornou a história muito rica e original, lembrando até os desenhos do filme Yellow Submarine! Entretanto, é sempre uma pena que um público, devido a este certo tipo de preconceito com animações, deixe de ver o filme por este motivo (que caminha neste formato por mais da metade do filme).

O Congresso Futurista, de aspecto abstrato e peculiar, nos coloca em situações de reflexão sobre inúmeras questões: a das falsas relações, a da modernidade líquida, a dos sonhos e ambições frívolas, assim como paixões frívolas, o amor líquido (já tão reconhecido por Bauman). As mensagens nos sãos enviadas constantemente, onde cada cena é senão uma informação impactante visualmente, ela é auditiva. Não posso esquecer a cena em que um dos robôs do tal Congresso Futurista diz à Robin Wright: Everything is in your mind, if you see the dark, then you chose the dark. O filme é, de fato, uma obra criada para a reflexão e crítica da e para com a sociedade.

Entretanto, devo dizer que não sou filósofa. Sou cinéfila. Ainda que o filme tenha sido feito de forma sensível e original, devo admitir que mesmo com a porção de cores e mensagens, depois de um tempo o filme se torna um tanto quanto cansativo, até mesmo pelo fato dos acontecimentos, dos “nós” do filme correrem de maneira muita rápida, assim como as demais personagens do filme serem tão pouco trabalhadas, dando-se a sensação que o diretor não poderia prolongar-se no filme. As cores e as mensagens são muito bem trabalhadas, mas as decorrências do filme, não. Entretanto, é pertinente mencionar que, a esquecida Robin Wright foi de fato uma escolha perfeita para o filme, mergulhando em seu personagem, fazendo com que não consigamos dissociar o ator da personagem – que era exatamente o objetivo da história.

Em suma, não posso discordar que O Congresso Futurista é de fato, um bom filme. Entretanto, até mesmo suspeito da caraterização de “filme” para este, uma vez que o roteiro, e os personagens foram tão deixados de lado. O Congresso Futurista é uma mensagem.

Fãs do cinema cult e aspirantes, podem aproveitar! Já eu, volto para meus aliens. Um abraço.



Fã de Nolan, Kevin Smith e Von Trier. Chora em “Toy Story”, assiste Grease toda vez que está passando na televisão e tem pavor de filmes com animais falantes. Torce pra a dominação alien sobre a Terra.É cinéfila e nas horas vagas, estudante de direito.