22
dez
2014
Crítica: “Trabalhar Cansa”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Trabalhar Cansa
Trabalhar Cansa
Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011
Roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra
Polifilmes

4

Embora Trabalhar Cansa tenha diversas evidências e tendências para um lado do suspense/terror, prefiro defini-lo como um filme sem gênero, afinal de contas ele trata de um assunto comum sob três perspectivas diferentes. O que faz do trabalho algo tão importante na nossa vida? O dinheiro? A satisfação profissional? Entre outras coisas, o longa de Juliana Rojas e Marco Dutra fala disso abordando situações distintas e complementares.

A primeira apresentada é a trama de Helena (Helena Albergaria), uma mulher casada e com uma filha pequena que decide alugar um imóvel com o objetivo de fazer dele seu futuro negócio: um pequeno mercado. Naquele local, já funcionara uma outra mercearia com um histórico misterioso enfatizado pela própria corretora de imóveis.

Depois conhecemos o marido de Helena, Otávio (Marat Descartes) que está deprimido em seu sofá, chorando por ter perdido o emprego para alguém mais jovem que ele. O seu drama é contado de maneira mais fria, pois o mesmo parece não se conformar com tal fato e também acaba se estressando e consequentemente se deprimindo por não conseguir arranjar um outro.

Por fim, Helena contrata uma empregada doméstica para tomar conta de sua filha e da casa. Paula (Naloana Lima) é uma jovem sobrinha de uma conhecida da protagonista e por causa das circunstâncias de aparente necessidade acaba aceitando o emprego não registrado na casa de Helena, pois para esta última sairia muito caro assinar uma carteira.

Todas estas tramas são bem simples, mas bastante curiosas e interessantes. Elas são apresentadas ao público com calma e tudo acontece de forma deveras lenta. Os movimentos do elenco chegam a parecer uma dança de tão delicados. Talvez isso também se dê por conta do clima que a história pede e pelos planos um tanto quanto detalhistas dos diretores, afinal de contas os closes aos objetos importantes na trama são mostrados com minucioso cuidado para que o público saiba o que está acontecendo com atenção. A câmera não tem grande agitação, mas consegue distanciar e ao mesmo tempo ficar mais próxima das personagens apresentadas.

O problema do filme pode estar em se criar uma grandiosa expectativa e que talvez não seja totalmente suprida pelo espectador, tendo em vista que as suposições deste é que valerão para que ele compreenda e aprecie o filme por completo. O espectador ansia pelas próximas cenas e acontecimentos, mas pode se decepcionar quando o tão aguardado ato não é totalmente tão incrível, mesmo que tudo se dê de forma assustadoramente macabra e intensa (e também quase completamente silenciosa). Mas o longa também tem diversas qualidades, afinal de contas a fotografia encontra ótimos planos, principalmente os simétricos com cores muito harmoniosas para as cenas mais tenebrosas e dá corda ao clima sombrio do filme.

As atuações do elenco, em grandiosa parte, desconhecido do grande público, são competentes e deixam os espectadores convencidos da história. Apesar de Helena ter um ar completamente doce e delicado, de vez em quando há uma grandiosa quebra e a personagem tem grandes momentos, quando discute impiedosamente com o marido em plena noite de Natal ou quando repreende seu funcionário que aparentemente apresentava um comportamento controverso em seu estabelecimento.

Aliás, o mercado parece ter várias elementos que o perturbam. É a corretora completamente desleixada e acomodada; o proprietário desconfiado e ao mesmo tempo despreocupado; os funcionários com seus dramas e mistérios, além é claro da própria Helena. Na casa da família, a empregada doméstica parece ser perseguida em determinadas cenas por Inês (Lilian Blanc), mãe de Helena o que causa um certo desconforto por parte da plateia, afinal de contas podemos muito facilmente nos identificar com Paula. Podemos nos identificar com Otávio também, já que o mesmo parece fazer de tudo para conquistar uma nova vaga no mercado de trabalho e acaba fracassando em diversas vezes.

Além de fugir dos esteriótipos e caricaturas em seus personagens, o filme também tenta fugir do convencional. O clímax pode desapontar os que estavam completamente aflitos e curiosos para o desenrolar do mistério anteriormente apresentado, ou não apresentado, afinal é algo que surpreende de certa forma e ocorre de forma natural dentro do contexto do longa, mas os finais são inteligentes e interessantes. Mostra que a força de cada um depende muitas vezes de um empurrãozinho para ser descoberto. E uma última curiosidade: o filme foi exibido na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes 2011 e aqui no Brasil levou um prêmio especial do júri no Festival de Cinema de Paulínia.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.