20
jan
2015
Crítica: “Garota Exemplar”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2015 • Postado por: Matheus Benjamin
Garota Exemplar
Garota Exemplar (Gone Girl)
David Fincher, 2014
Roteiro: Gillian Flynn
Fox Filmes

4.5

David Fincher é um diretor exemplar. Trocadilho a parte, devo confessar que gosto bastante de seu estilo e sobretudo todas as suas incríveis adaptações de livros para o cinema. De certa forma, mesmo sem saber nada do filme, estava com certa expectativa com este novo. E aconselho a qualquer pessoa que seja de assistir a este longa sem saber nada ou quase nada sobre a trama dele. Portanto, aviso de antemão que nesta crítica não haverá qualquer tipo de spoiler ou revelações acerca da história.

Nick (Ben Affleck) é casado com Amazing Amy (Rosamund Pike), os dois vivem uma relação muito boa até o dia em que Amy misteriosamente desaparece deixando a imprensa alarmada e cheia de especulações acerca do sumiço. Com essa pequena premissa um filme cheio de armadilhas, intrigas, flashbacks e muita surpresa é construído. Conforme o filme avança, o espectador ansia por mais e acaba se surpreendendo a cada novo conflito armado. As atuações do elenco no geral são bastante primorosas. Ben Affleck se destaca e começa a dar um outro rumo para sua atuação, provando que não é um ator tão ruim quanto se imaginava. Rosamund Pike brilha em todas as suas cenas, acertando em todas as nuances exigidas de sua personagem, um tanto quanto controversa. Aliás, ninguém é confiável em Garota Exemplar.

Outras personagens também tem certo destaque como Desi (Neil Patrick Harris), um ex-amorzinho de Amy, que tem uma reviravolta incrível durante o desenrolar da história; Margo (Carrie Coon), irmã gêmea e confidente de Nick; Tanner Bolt (Tyler Perry), o advogado persuasivo de Nick e Ellen Abbott (Missi Pyle) apresentadora de um programa voltado ao mundo das celebridades que levanta diversas hipóteses com relação ao desaparecimento de Amy em rede nacional.

A sordidez dos fatos e a trama intrincada são chamarizes para o público. O longa apresenta personagens completamente maquiados em seus holofotes e bastante problemáticos fora deles. A construção narrativa, juntamente de seu elenco e direção afiada são interessantes e conseguem transpor à tela tudo o que fora prometido anteriormente. O suspense se dá de forma inteligente e grandiosa, apresentando a trama; mostrando tudo sobre cada uma das personagens, ou quase todas, elevando alguns e deixando outros sem muitos detalhes; em seguida lança expectativas e analisa hipóteses para lá pela metade surpreender a todos e fazer grandes revelações.

A direção de Fincher é apurada para os detalhes. Sabemos que ele gosta de estar minuciosamente perto de seus personagens e fazer os espectadores os admirarem dentro de seus filmes. Algumas cenas fogem bastante do estereótipo hollywoodiano de se filmar e são bastante contemplativas, principalmente alguns planos de Amy. Fincher soube aproveitar ao máximo as facetas de sua protagonista. Amy é uma personagem humana, com acertos incríveis mas com erros bobos. Porém, mesmo sendo uma personagem encantadora, astuta e bastante perspicaz, vemos a mesma em diversos momentos completamente desastrada e torpe. Cenas grotescas são apresentadas ao público de forma quase natural, já que pode-se perceber o masoquismo da protagonista em questão desde suas primeiras aparições.

A fotografia é limpa com suas cores frias em momentos presentes e de tensão; nos flashbacks vemos algo mais quente e cheio de vigor. Os planos são ricos em detalhes como é praxe nos filmes de Fincher. Sua câmera consegue vislumbrar diversos pontos da cena em questão, fazendo o espectador levantar hipóteses e fazer indagações junto da equipe de investigadores do filme. A trilha sonora é agradável e por ora necessária. O clima de suspense é construído com bastante maestria e deixa o espectador aflito e ávido por mais do começo ao fim.

O roteiro tem pequenos furos, alguns bem bobos e só percebidos em uma segunda assistida, afinal de contas todo o mistério já havia sido apresentado anteriormente, então mais atenção aos detalhes! Porém, é fato que Gillian Flynn acertou em cheio quando desenvolveu a história e sobretudo quando resolveu traspor ela própria para o cinema, não se esquecendo que as duas mídias são completamente diferentes. E temos mais uma vez junto de David Fincher uma história permeada de personagens racionais, frios e ao mesmo tempo inconsequentes com uma belíssima montagem e trama excelente.

No Oscar 2015, o filme concorrerá apenas na categoria Melhor Atriz com Rosamund Pike, o que é uma injustiça, tendo em vista que David Fincher merecia uma indicação por Melhor Diretor e Melhor Filme.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.