22
jan
2015
Crítica: “O Abutre”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2015 • Postado por: Matheus Benjamin
102007
O Abutre (Nightcrawler)
Dan Gilroy, 2014
Roteiro: Dan Gilroy
Diamond Films

4

A grande maioria das cenas de O Abutre acontecem de noite, quando a tensão da escuridão deixa tudo mais eletrizante. E o filme é um thriller bem amarrado que conta com uma direção bastante interessante, além de um elenco bem firme.

Lou Bloom (Jake Gyllenhaal) é um ladrão que comete pequenos furtos e que andando pela cidade durante uma noite se depara com um acidente e conhece freelancers para a televisão que filmam acontecimentos noturnos (no geral, crimes e acidentes) para serem comprados por uma emissora e transmitidos durante um jornal sensacionalista. Instigado pelo dinheiro fácil que poderia sair daquele empreendimento, acaba adquirindo uma câmera de forma não muito legal e tentando um espaço pelas noites, sendo um verdadeiro abutre em busca de “comida”.

Logo, Lou encontra Rick (Riz Ahmed), um parceiro bastante ingênuo que aceita trabalhar por alguns poucos dollares por noite. E ao vender seu material um tanto quanto amador para uma emissora importante de televisão, conhece a editora de imagens, Nina (Rene Russo) e vive uma relação amigável com a mesma, já que ela é bastante inteligente e desafiadora, assim como o personagem de Jake.

Conforme o tempo passa, os desafios em filmar novos crimes e acidentes pela cidade com astúcia ganham a rivalidade de uma empresa de freelances, o que acirra ainda mais as relações entre o Lou e seu concorrente. Além disso, um caso grandioso passa pelas lentes do mesmo e este consegue um destaque maior para com seu atual trabalho e a forma fácil de se fazer dinheiro.

A direção do filme é um dos seus pontos fortes. Dan Gilroy consegue criar um clima bastante frio e ao mesmo tempo quente com suas cenas muito ágeis e seu roteiro instigante. O espectador fica ávido por novos acontecimentos e saber como o protagonista conseguirá se sair perante as novas situações encontradas pelo decorrer da trama. Tudo é muito bem amarrado e as relações de Lou com os demais personagens são bastante interessantes. Junto de seu parceiro ele manipula, engana e consegue extrair tudo o que quer; com Nina aproxima-se gradualmente passando um clima de sedução, ironias e sarcasmos e os dois conseguem criar uma excelente química, mesmo que não exista um romance entre eles de fato; com Joe (Bill Paxton), seu rival, as tensões só aumentam e seus encontros são marcados por piadas sobre o trabalho “sujo” do outro, entre outras coisas.

O filme é quase completamente de Jake Gyllenhaal. O ator, aliás, passou por uma mudança física interessante para o papel, emagrecendo alguns quilinhos, deixando um aspecto envelhecido e ao mesmo tempo doente para com seu personagem. Sua atuação também é destaque já que consegue transpor tudo o que é necessário para a tela, desde berros, seriedade, frieza e charme. Lou é um personagem que começa desesperadoramente tímido porém com bastante lábia, sem muitas perspectivas de vida e que com olhares atentos consegue observar tudo a seu redor e extrair toda e qualquer coisa (seja boa ou ruim) para si, transformando-se em um cara sem escrúpulos e ainda mais mesquinho. É um verdadeiro morto de fome, um verdadeiro abutre ávido por dinheiro e poder.

No geral, o filme é um ótimo longa sobre pessoas gananciosas que querem conquistar espaços que talvez não sejam os delas, além de passar por cima de tudo e todos para conseguir o que quer. O clima de suspense é interessante e cativante ao espectador; a direção desafiadora com seus personagens bem construídos junto de seu elenco forte e bem condensado à trama; o roteiro é muito inteligente, original e sem pontas soltas, há algumas coisas a serem questionadas, obviamente, mas no geral é bem executado. É um bom filme que mantém o espectador atento à tela, com uma história boa e personagens muito bons.

O Abutre concorre apenas na categoria “Melhor Roteiro Original” no Oscar 2015, o que é uma injustiça, sendo que o filme teria grande potencial para concorrer a Melhor Filme e Jake Gyllenhaal merecia uma indicação de Melhor Ator.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.