31
jan
2015
Crítica: “O Jogo da Imitação”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2015 • Postado por: Matheus Benjamin
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O Jogo da Imitação (The Imitation Game)
Morten Tyldum, 2014
Roteiro: Graham Moore
Diamond Films

3.5

O matemático inglês Alan Turing foi uma figura importante do século passado responsável, segundo estudiosos, por encurtar a segunda guerra em dois anos, devido seu conhecimento avançado e estudos minuciosos, além de sua força de vontade para querer continuar mesmo quando todos estavam contra ele. E mesmo sem saber nada sobre o que o filme trataria, fui assisti-lo com certa expectativa por conta do elenco principal composto por Benedict Cumberbatch e Keira Knighley.

Em uma narrativa não-linear, nos anos 50, tudo começa com um detetive (Rory Kinnear) investigando um ato curioso sobre a vida de Alan Turing (Cumberbatch) e baseado em suas suposições (de que ele seria um espião soviético) resolve interroga-lo.

Na sequência, retorna para 1941 quando Turing fora trabalhar para a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, onde junto de sua equipe deveria desvendar as mensagens presentes na Enigma, uma máquina usada pelos soldados alemães para comunicação durante a guerra.

E ainda dentro deste tempo conseguimos voltar à infância de Turing, onde conhecemos ainda mais do personagem, seus traumas e uma amizade que manteve com um colega chamado Christopher.

Durante a maior parte do longa, conferimos a vida de Alan durante a Segunda Guerra mostrando-se um homem bastante perspicaz ao mesmo tempo que, de certa forma, arrogante aos olhos de seus colegas de equipe, compostos por Hugh (Matthew Goode), John (Allen Leech) e Peter (Matthew Beard). Quando todos estavam dispostos a apenas fazer o que havia sido recomendado pelo superior Denniston (Charles Dance, com um personagem bem parecido com seu Twin Lannister de Game of Thrones), Turing ousou e como o gênio nato que era pensou em algo inimaginável e até mesmo impossível: construir uma outra máquina, bastante avançada que decodificaria as mensagens da Enigma em questão de segundos. Nesse contexto é que surge Joan Clarke (Knightley), convocada para ajudar no processo criativo da Christopher, a nova máquina, conhecida hoje em dia como computador.

O roteiro tenta abordar a questão do preconceito às mulheres na época, mas é algo que desaparece em questão de segundos dentro da trama e retorna algumas outras poucas vezes. A direção de Morten Tyldum não é ousada, mas sustenta a boa história que tem nas mãos, mesmo que ainda não se saiba quais são os reais focos do filme. O que antes parecia ser o foco da produção fica em segundo plano e um outro é melhor explorado. Fora essa indecisão, o diretor soube dar leveza e trazer cenas cômicas à tona quando necessário, ao mesmo tempo que extrai o máximo que consegue de seu elenco.

Destaque para o indicado ao Oscar Benedict Cumberbatch que interpreta um protagonista tímido no começo, mas bastante desafiador quando confrontado e vai se soltando conforme o tempo vai passando. Keira Knightley também tem uma ótima atuação, assim como Matthew Goode. Alex Lawther interpreta Alan Turing jovem e é um ator para se ficar de olho, tendo em vista que em determinada cena, uma das mais belas e dramáticas na minha opinião, consegue manter firmeza no olhar e voz quando gostaria (ou deveria?) de desabar.

Um outro fato na trama e explorado pelo roteiro, principalmente no terceiro ato, é a homossexualidade do protagonista. Na época, ser homossexual na Inglaterra era considerado crime, além de ser tratado como doença grave, o que deixou Alan escondendo sua sexualidade às sete chaves, só o revelando aos mais íntimos de sua volta. Dentro deste contexto, novamente surge a personagem de Knightley em uma sequência carregada de sensibilidade para mostrar que ainda há esperança na humanidade. Com este longa, baseado no livro  Alan Turing: The Enigma, escrito por Andrew Hodges podemos notar uma importante questão levantada em um misto de indignação: o quão caro é perder grandiosos gênios por conta da ignorância da sociedade, quase sempre retrógrada. Turing conseguira avançar na tecnologia enquanto em sua vida pessoal o atrasavam.

O Jogo da Imitação oscila muito na vida pessoal de seu protagonista ao mesmo tempo que quer mostrar seu grande feito à humanidade; não é o melhor filme de 2014, mas é sem dúvidas um bom longa sobre repressões internas; gênios loucos e adoráveis; amor, lealdade e sobretudo amizades fortes que dão apoio e esperança.

No Oscar 2015, concorre a Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção de Arte, Melhor Edição e Montagem e Melhor Trilha Sonora.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.