21
fev
2015
Crítica: “A Teoria de Tudo”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2015 • Postado por: Victor Hugo
A Teoria de Tudo (The Theory of Everything)
James Marsh, 2014
Roteiro: Anthony McCarten
Universal Pictures Brasil

3.5

Se há uma coisa que me encanta não só no cinema, mas na arte como um todo, é a sua capacidade extremamente contraditória de unir e dividir opiniões, e portanto, pessoas. Um filme indicado a cinco Oscars 2015 e que pelo que tenho percebido, tem dividido muitas opiniões, é a cinebiografia do grande cientista Stephen Hawking, A Teoria de Tudo (The Theory of Everything, 2014). Os motivos para essa imensa divisão são um tanto quanto óbvios para mim, e já de cara digo, que fico do lado dos que ficaram impressionados com essa incrível adaptação, mas não necessariamente concordam com todo o crédito recebido. Ou seja, uma contradição.

Stephen (Eddie Redmayne) nos é apresentado logo com uma cena extremamente clichê em filmes do gênero. A cena inicial é a de um jovem universitário feliz competindo com seu amigo Brian (Harry Lloyd) em cima de sua bicicleta em direção a uma festa na Inglaterra dos anos 1960. É nessa festa em que ele conhece Jane (Felicity Jones), uma estudante de Letras que desde cedo deixa clara sua religião, já que Stephen se declara ateu na primeira oportunidade, afinal, ele é um estudante de Física e em sua concepção, trata-se de uma ciência onde não cabe deus algum. Apesar desse primeiro encontro expor claramente as diferenças do futuro casal, o interesse de ambos faz com que o relacionamento cresça, e junto a isso, o rapaz está próximo de concluir seu doutorado em Cosmologia.

Apesar do foco principal do filme ser na relação de Stephen e Jane, – afinal o roteiro foi baseado no livro de mesmo nome escrito por ela – a vida acadêmica do personagem também tem uma grande importância e é com essas cenas que a direção escolhe nos mostrar o início tímido e devastador de sua doença. É possível com olhos um pouco atentos perceber em todas as primeiras cenas devotadas aos seus estudos, o personagem faz alguma coisa desastrada que seria facilmente ignorada por qualquer um, mas não pelo espectador que já sabe o que está por vir e isso foi muito inteligente no roteiro.

A esclerose lateral amiotrófica atingiria todo o físico de Stephen e o levaria a morte em dois anos, segundo médico que faz o diagnóstico, o que leva Jane a ser colocada diante de seu sentimento e a vontade de aproveitar o pouco tempo que tem com ele para dar-lhe um final de vida feliz, casando-se e dando-lhe três filhos. E é então que vemos outra incrível qualidade do filme: a noção distorcidamente curta do tempo. A incrível mente de Hawking, apesar de enfrentar dificuldades terríveis de comunicar-se, continua a produzir grandes teorias para a física, mas como a história vem do ponto de vista de Jane, tais fatos ficam em um segundo plano diante da dificuldade de ser babá de Stephen, e mãe. Dificuldade essa que aos poucos mina seu amor, e ele com muita maturidade reconhece isso.

A fotografia trabalha muito com a contraposição de tons quentes e frios o que é um recurso simples mas muito interessante, que quando combinado a trilha sonora incrível composta por Jóhann Jóhannsson, cria uma experiência bela em ambas as dimensões, além é claro de afetar diretamente o emocional dos espectadores.

O problema está no exagero. Exagero na simplicidade. Não se trata de uma experiência inovadora ou corajosa. Sem dúvida é bem feito e conta com atuações que com certeza fazem jus as indicações de Melhor Ator, Melhor Atriz, e também as indicações de Roteiro Adaptado e Trilha Sonora, e eu não ficaria triste se vencessem, embora acredito que Eddie Redmayne é o único real favorito das indicações recebidas. A única que não entendi e não entenderei é a de Melhor Filme, afinal de contas, 2014 produziu filmes muito melhores que A Teoria de Tudo. Filmes que pela injustiça do funcionamento do prêmio da Academia, não tiveram e nem terão o reconhecimento devido.

Com isso, basta apenas apreciar os que conquistaram tal reconhecimento, e pensarmos sobre a vida de um homem incrível, que mesmo preso ao seu corpo – o que é demonstrado durante toda a história e permite gerar discussões extremamente proveitosas – conseguiu manter-se extraordinariamente vivo. Muito mais vivo que nós julgados como “normais”, jamais pensamos em estar.



Lorde Vampírico e Geográfico das trevas, ex-ditador dessa pocilga, aspirante a escritor e a web-designer, twilighter, beatlemaniaco, parawhore, narniano e, é claro, cinéfilo. Hoje me resumo à vice-presidente do site. Amém irmãos? Amém.