09
fev
2015
Crítica: “Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2015 • Postado por: Matheus Benjamin
Birdman
Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman)
Alejandro Gonzáles Iñarritu, 2014
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo
Fox Films

4.5

O cineasta mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu me conquistou logo quando assisti Babel (idem, 2006), um de seus mais famosos longas sobre histórias de pessoas em países diferentes que de alguma forma estavam interligadas. Seu jeito de filmar e sua habilidade na direção me tornaram um de seus possíveis inúmeros admiradores secretos espalhados ao redor do globo. Em seguida vi Amores Brutos (Amores Perros, 2000), 21 Gramas (21 Grams, 2003) e Biutiful (idem, 2010) que também me conquistaram e, definitivamente, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) entrou para a lista dos favoritos!

Riggan (Michael Keaton) é um ator quase fracassado que quer voltar ao estrelato, após recursar-se a participar de uma sequência em um filme de super heróis (Birdman), onde era o protagonista. Para também reconquistar seu reconhecimento como ator, o mesmo resolve dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Porém, durante os preparativos para a peça, Riggan precisa lidar com sua filha Sam (Emma Stone), seu agente Brandon (Zach Galifianakis), além do elenco problemático de sua peça composto por Mike (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough).

Iñarritu emprega todo seu estilo cinematográfico à obra, ao mesmo tempo que inova em diversos aspectos. Filmar corredores estreitos e quase sufocantes, além entrar de vez em quando na mente do seu protagonista é apenas uma de suas façanhas. Mas os planos sequências, quase totais ao longa são o que mais chamam a atenção. As cenas, apesar de parecerem nunca ter fim, ficam muito verossímeis e palpáveis à realidade. Faço aqui uma analogia à parte técnica do filme a uma peça de teatro (talvez Macbeth?) onde tudo deve ser milimetricamente ensaiado, cronometrado e ajustado antes da execução. Com Birdman, obviamente tudo fora desta forma. Apesar de normalmente tudo ser ensaiado e ajustado perfeitamente antes de ser filmado, em planos sequências das proporções que o filme entrega podemos ver um cuidado triplicado. Os atores são muito bem posicionados e colocados na cena muito antes de serem filmados pra valer. As vezes uma cena começa em um dos cenários e caminha por quase toda casa de espetáculos sem cortes.

O filme também faz duras e inteligentes críticas aos próprios profissionais da crítica. Além é claro de oferecer uma visão de fora do mundo do entretenimento, mesmo que Iñarritu esteja lá há bastante tempo. Pois bem, Riggan, o ex-ator (?) da história era duramente criticado por seu papel em Birdman, um super herói no cinema e ficou um vasto tempo fora das telonas por conta disso, assim como o próprio Michael Keaton depois de interpretar Batman (idem, Tim Burton) em 1989. E também mostra que os mesmos julgam muito por seus interesses e gostos pessoais sem nem ao menos assistir o produto novo, como é o caso da personagem Tabitha (Lindsay Duncan) que admite odiar Riggan com todas as suas forças e por ser uma das maiores críticas da Broadway, iria acabar com a peça do mesmo e tudo porquê não gosta dele. O filme também traz um trecho sensacional ao discurso de Riggan quando este diz que o trabalho da crítica nada mais é do que reclamar de algo que alguém deu o sangue para se realizar, seja uma peça ou um filme. O longa também consegue agilmente criticar o sistema hollywoodiano de se fazer cinema.

Ainda que várias situações dentro do longa possam parecer clichês em uma história do tipo, o filme consegue ser bastante inovador em quase todos os aspectos. Mike é um dos personagens mais dúbios e engraçados da trama, pois podemos notar que o mesmo é um ator que gosta de sentir tudo na pele e se entregar bastante para seus papéis. Em determinado momento com a filha de Riggan, Sam, o mesmo admite que representando consegue fazer coisas que até ele duvida, enquanto durante sua própria vida essas coisas são difíceis de acontecer. E Sam é uma personagem um tanto quanto apagada. No começo, ela surge tímida como “assistente” de seu pai dentro da companhia de teatro, mas ela sempre o culpara por o mesmo não ser um pai. Depois, tristonha e solitária, ela interage com o elenco da peça, sobretudo Mike com quem tem conversas interessantes.

Aliás, o longa é permeado de boas atuações com um elenco bastante carismático e competente. Provavelmente o elenco teve um desafio enorme ao aceitar gravar o filme, tendo em vista que precisariam estar perfeitamente bem ensaiados e quase livre de erros. O roteiro também é um ponto forte, com diálogos bastante irônicos, sendo cômico em vários sentidos e instantes. E apesar de manter um lado bastante realistíco por boa parte da obra, o roteiro também dá asas à imaginação e insere um lado mais fantasioso que seria a própria mente de Riggan, que escuta vozes aleatórias sobre o que deve ou não fazer; sobre com o que deve prosseguir ou não. Essa voz palpita, perturba e brinca com o protagonista de forma incansável. E o lado fantástico se mistura à realidade em determinado momento que até mesmo o espectador ficará preocupado com a veracidade dos fatos.

Com uma fotografia e direção impecáveis, afinal de contas, correr atrás de fatos dentro de uma trama e portar-se como uma observadora constante e impiedosa não é uma tarefa fácil, conquistada com êxito por Emmanuel Lubezki e Iñarritu, respectivamente; elenco muito afiado e bastante carismático; boa trilha sonora e bom roteiro; Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é um dos melhores filmes do ano por diversos fatores, entre eles o discurso metalinguístico presente, mas talvez o principal seja a ousadia ao contar essa história e a agilidade encontrada para narra-la. O filme consegue ser fantasioso ao mesmo tempo que bastante realístico; consegue ser frio ao mesmo tempo que quente; consegue ser bonito e limpo ao mesmo tempo que feio e sujo; lento e frenético; além é claro da vida imitar a arte e a arte imitar a vida. É esse agridoce de encontros que faz o filme ser tão incrível.

No Oscar, o longa de Iñarritu concorre a Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhor Fotografia.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.