26
fev
2015
Crítica: “Cinquenta Tons de Cinza”
Categorias: Críticas • Postado por: Victor Hugo
Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)
Sam Taylor-Johnson, 2015
Roteiro: Kelly Marcel
Universal Pictures Brasil

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Logo ao fim da sessão de Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey, 2015), juntei-me a uma amiga que já conhecia os livros e havia adorado o resultado nas telas e lhe fiz uma pergunta: “Quantos atos tem um filme?” Ela respondeu: “Normalmente três.” E eu completei “Como um texto correto? Introdução, desenvolvimento e conclusão.” E ela concordou. Então, fui a pergunta que gostaria de fazer desde o início: “Quantos atos teve esse filme?” e logo, ela e mais uma amiga que também havia gostado ficaram na defensiva e antes mesmo de responder disseram “Tem mais dois livros!”. Eu sei, não é bom começar um texto com um diálogo chato como esse, mas é a isso que esse filme se resume: Diálogos chatos. Que ao contrário deste acima, não tem nenhum objetivo claro.

Nessa crítica, provavelmente usarei de recursos um tanto quanto desonestos, já admito desde o início. Basicamente porque falarei de algo que faz com que todo e qualquer leitor que se interessa sobre Cinema foge em todo texto: Relações pessoais com a obra. Pessoais porque quem já me conhece um pouco sabe que sou um defensor do indefensável, sou um grande admirador da tão execrada Saga Crepúsculo, e como tal, me senti pessoalmente ofendido por essa obra.

A história você provavelmente já cansou de ler em qualquer lugar. Anastasia Steele, interpretada com um esforço quase que desesperado por Dakota Johnson, é uma estudante concluinte de Literatura Inglesa, e vive com Kate (Eloise Mumford), uma estudante de Jornalismo que tem uma entrevista marcada com o jovem e bem sucedido empresário Christian Grey (Jamie Dornan). Por causa de uma gripe, ela passa esta responsabilidade para sua colega de quarto, que com seu péssimo gosto para roupas e sua péssima coordenação motora – ao ponto de cair logo que atravessa a porta do escritório de Grey – faça uma entrevista com o rapaz.. Quase que inexplicavelmente, ele começa a persegui-la e disso surge a relação dos dois. Nessa relação que tem uma estrutura extremamente parecida com a de uma Comédia Romântica, recorrendo até mesmo à personagem bêbada que faz piadas infames o tempo todo, Christian a leva para um de seus apartamentos e mostra à garota, até então virgem, quem ele realmente é: Um sadomasoquista.

O problema? O problema basicamente é que essa sinopse deveria ser considerada um spoiler. Spoiler porque o filme se resume a isso. Essa é a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. Isso é o que resume Cinquenta Tons de Cinza. Um filme com tal orçamento tem obviamente suas qualidades como a fotografia, principalmente quanto ao uso de cores, e a trilha original – enquanto a instrumental é risível – que tem ótimas performances. Mas nada disso consegue melhorar a experiência.

Anastasia é uma submissa tão esquizofrênica que chega ao nível ridículo de aceitar os pedidos do rapaz nada bem intencionado, e chorar logo depois. Não se trata de uma Bella sem sal como todos gostam de comparar, trata-se de uma marionete. Um boneco que aparenta estar disposta a ceder aos caprichos do seu dominador quando na verdade só faz isso por estar com ele, por ser dependente dele. Dizer que todas as ações são consentidas não significa que ela está feliz com isso. A felicidade dela é a ter o príncipe lindo e milionário, o tão idealizado homem dos sonhos de qualquer mulher. Ele não a ama (ao menos no princípio) e ela está disposta a dar a ela o que pode, porque o seu único prazer, é estar ao seu lado, e aceitar isso achando até mesmo admirável e lindo nela, é minimamente inaceitável no século XXI.

Saber que uma história tão ofensiva a todas as conquistas das mulheres e tão pobre narrativamente faz com que eu, repito, defensor do indefensável e admirador da tão execrada Saga Crepúsculo sinta-se pessoalmente ofendido. Ofendido porque a mensagem principal da Saga nunca foi a submissão – e espero um dia poder explicar minhas convicções sobre a obra de Stephenie Meyer – e se essa não é a mensagem de 50 Tons de Cinza, espero que os outros livros ao menos tentem, me explicar qual é.



Lorde Vampírico e Geográfico das trevas, ex-ditador dessa pocilga, aspirante a escritor e a web-designer, twilighter, beatlemaniaco, parawhore, narniano e, é claro, cinéfilo. Hoje me resumo à vice-presidente do site. Amém irmãos? Amém.