23
fev
2015
Crítica: “Ida”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2015 • Postado por: Matheus Benjamin
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Ida (Ida)
Pawel Pawlikowski, 2013
Roteiro: Pawel Pawlikowski
Zeta Filmes

4

Ida é um filme muito bonito. Ele começa timidamente, em um silêncio quase mortal, já mostrando que sua fotografia será um dos seus pontos mais importantes e vai avançando conforme a protagonista, Ida (Agata Trzebuchowska) uma noviça que em breve passará por um processo no convento onde fará seus votos e se tornará freira, acaba recebendo uma ordem da Madre Superiora (Halina Skoczynska) de conviver com sua família. Como ela é orfã de pai e mãe, procura por sua tia Wanda (Agata Kulesza) e com ela passa alguns dias em uma realidade completamente oposta a que vivia no convento.

Esta realidade oposta é recebida com certo choque por parte da protagonista, pois terá de conviver com uma tia que é bastante chegada em álcool e cigarro, além de ter relações sexuais ocasionais em curtos períodos entre uma e outra. Mas ela sabe que com essa convivência terá que amadurecer, de certa forma, e levar como um aprendizado, pois aparentemente Ida vivia em uma bolha sem escape no convento, onde não conhecia quase que absolutamente nada do mundo. No primeiro encontro familiar das duas, ela logo descobre que seus pais morreram durante a Segunda Guerra Mundial e que é judia.

Junto desta tia, ela acaba viajando por alguns vilarejos em busca de uma pessoa que tenha conhecido seus pais e saiba onde estes foram enterrados. A partir daí, é apresentado ao espectador um ótimo road movie que inclui paisagens deslumbrantes e ótimos enquadramentos. A direção incrivelmente precisa do polonês Pawel Pawlikowski nos contempla a grandiosidade dos cenários, que em sua grande maioria mesclam a neve com árvores e/ou casarões, minuciosamente bem inseridos ao contraste das personagens que parecem pequeninas em meio à todas as construções, sejam elas naturais ou não. A fotografia em preto e branco só contribui para a beleza plena do longa e investe em uma perspectiva baixa das personagens, o que reforça o desconforto das mesmas acerca dos acontecimentos.

Ida ainda traz diversos questionamentos acerca dos pré-julgamentos. Tia e sobrinha estão dispostas a aprender uma com a outra, mas ao mesmo tempo pensam coisas a respeito de cada uma. Enquanto a tia acha irrelevante uma moça como Ida fazer votos de castidade, esta última não aprova o comportamento promíscuo de Wanda. Ao som de jazz e outras composições mais sutis, o longa é regado de uma sensibilidade interessante ao tratar de um tema que ainda causa comoção no cinema. Um período tão drástico na história mundial, a perseguição dos judeus durante o nazismo ganha uma nova perspectiva através do filme e mostra uma Europa pós-guerra ainda bastante abalada e traumatizada.

Em um quase silencioso filme, as protagonistas têm atuações marcadas mais por expressões e detalhes em suas ações do que em diálogos propriamente ditos. Tanto Agata Trzebuchowska quanto Agata Kulesza desempenham seus papéis com ampla sensibilidade e sutiliza, mesmo em momentos mais difíceis e de confrontos internos. As personagens têm psicologias interessantes de serem observadas e analisadas e os questionamentos que ocorrem com relação às suas vidas são importantes para decisões futuras. Caminhando para seu desfecho, o espectador é surpreendido com essas decisões sendo tomadas pelas personagens.

A fotografia deslumbrante, aliada à direção maravilhosamente bem encontrada, o drama das personagens, os conflitos, as viagens e histórias trazidas à tona, além de grande sensibilidade, fazem de Ida um grandioso e artístico filme sobre perdas, erros, acertos, decepções, intrigas e amores. É mais que merecido que tenha vencido na noite de ontem o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro.

No Oscar 2015, também concorreu na categoria Melhor Fotografia, mas a estatueta ficou com Birdman.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.