22
fev
2015
Crítica: “Selma – Uma Luta pela Igualdade”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2015 • Postado por: Matheus Benjamin
Selma
Selma – Uma Luta pela Igualdade (Selma)
Ava DuVernay, 2014
Roteiro: Paul Webb
Buena Vista Films

4

Este é o primeiro trabalho que assisto da diretora Ava DuVernay. E embora seja uma biografia muito bem dirigida, com uma boa fotografia e boas atuações, o filme é bastante convencional. Logo no começo percebe-se que, com seus letreiros indicativos e seus planos clássicos em filmes do tipo em que exploram, de certa forma, o protagonista em questão, aqui no caso Martin Luther King Jr. (David Oyelowo), o filme irá focar em um outro aspecto da vida deste, mostrando seu engajamento político e sua militância pelos direitos dos cidadãos negros estadunidenses.

E o protagonista forte mostrado pela obra, é um King justo, honesto e bastante racional. Ele é movido pela razão e é ela quem dita as regras, apesar de o mesmo aparentar nos primeiros minutos uma certa aflição. O filme acompanha King tendo encontros com o presidente da nação, tentando convencê-lo de aprovar o direito de voto aos cidadãos negros. Uma das primeiras cenas mostra como todo o processo burocrático era ainda pior para esses cidadãos e o quanto precisavam se desdobrar para serem debochados. Annie Lee Cooper (Oprah Winfrey) é apresentada nesse contexto, enquanto assina papéis para conseguir o seu “título de eleitor”. Em termos de roteiro, é linear e explicativo, o filme não pincela a vida de King e lhe dá um foco (algo que não foi feito com muito êxito por uma outra cinebiografia da temporada: A Teoria de Tudo), mas sua execução é bastante tranquila, bastante calma e quase sem riscos.

Selma é um filme contemplativo e brutal. Pode-se notar certa agilidade na direção em tratar de multidões. O longa traz muitas marchas e protestos; traz muitas assembleias e em seu desfecho um discurso impactante e bastante plausível. Ele contempla King de diversas formas, a câmera parece focalizá-lo em quase todas as suas cenas e tudo se torna ainda melhor junto de seu interprete que desempenha um ótimo trabalho. Sua atuação é pacífica e seu olhar, seu jeito de se portar aliado às suas expressões carregadas de tom são o bastante e são ainda mais impactantes que os próprios diálogos. E o filme é brutal por tratar especificamente de passagens tensas e quase insanas de violência, onde a repressão por parte da polícia durante os protestos era carregada de pauladas, socos e chutes. A brutalidade também transparece à tela quando mostra-se a opressão por parte de outras autoridades como o presidente e governadores.

O filme retrata o começo dos anos 60 com agilidade e direção de arte chamativa. A fotografia está belíssima e é bastante competente junto da arte, mostrando-se eficiente na composição das cores, texturas e planos. Tudo é bastante detalhado e impressiona por conta disso. Todos os cenários são muito bem montados e a caracterização está bastante verossímil. A direção, apesar de não ser inovadora, mais uma vez é bastante precisa e com o tom correto. As cenas à luz do dia também são bastante bem feitas e montadas. A montagem do filme é ágil e junto da trilha sonora, um dos pontos mais fortes do longa em minha opinião, conseguem cumprir o que prometem. A maioria das músicas sobem quando devem subir e de forma subliminar incitam o espectador a aflorar suas emoções acerca da obra.

Mesmo com muitas coisas positivas, o filme é bastante convencional, como dito anteriormente, para uma biografia e mesmo que o roteiro escolha por outros caminhos, no final temos letreiros massivos que mostram o destinos da maioria dos personagens, além de apresentar várias imagens de arquivo que comprovam a veracidade dos fatos apresentados no decorrer da exibição. Apesar dos pesares, Selma consegue ser grande e muito presente. É um filme sobre política e, sobretudo, sobre como a união faz a força. Em seu terceiro ato, ainda carregado de muito drama, pode-se notar novamente as expressões incríveis de King em uma das mais belas cenas do filme e como a razão é utilizada para decidir os rumos do jogo.

Com a atuação marcante de seu protagonista, com a direção de arte e fotografia condensadas à boa direção, Selma é um filme bem triste e que pode tecer certa indignação por parte de sua plateia com os fatos reais apresentados, é bem narrado certamente, carregado de sensibilidade e drama na medida, é uma pena que não tenha tido tanta atenção entre tantas outras cinebiografias da temporada.

No Oscar, o filme concorre às estatuetas de Melhor Filme e Melhor Música Original (Glory).



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.