31
mar
2015
Crítica: “Os Amigos”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Os Amigos
Os Amigos
Lina Chamie, 2013
Roteiro: Lina Chamie
Imovision

4

Tudo o que o espectador tem sobre a amizade, desde memórias, momentos bons, tristes, brigas, coisas guardadas lá no fundo vem à tona quando se assiste Os Amigos, filme da diretora Lina Chaime. E só digo isso, me colocando no meio da história, porque acabei me emocionando com três momentos distintos do filme. Com uma incrível sensibilidade ao retratar um momento difícil, mas iminente da vida de qualquer pessoa, conhecemos Téo (Marco Ricca) indo ao velório de um melhor amigo de infância e com isso vê-se um personagem angustiado com a quase completa solidão atual e seu afastamento que teve nas relações com tal amigo que deixou uma viúva (Sandra Corveloni) e um filho.

Montado com algumas lembranças da vida de Téo, entrelaçadas à pequenas cenas de crianças discursando em um palco e alguns fatos de sua vida naquele dia, acompanha-se um dia na vida deste homem enquanto a tristeza e o luto pairam no ar. Sim, também acho que há uma certa vontade do roteiro em se comunicar com Ulysses, de James Joyce. Embora tudo isso esteja bastante presente por toda a narrativa do longa, este não é, de longe, um filme completamente triste. Ele tem momentos bastante sensíveis, em que com certa reflexão vê-se grande identificação, porque as personagens são bastante verossímeis. Mas a história em si não é o grande foco do filme e sim os sentimentos, os conflitos internos, as emoções do protagonista muito bem interpretado pelo competente Marco Ricca. O filme ainda traz coadjuvantes como Caio Blat, Alice Braga, Rodrigo Lombardi e Fernando Alves Pinto, que surgem em um momento na tela e logo desaparecem, mostrando ao espectador que são pessoas passageiras, embora presentes na vida do arquiteto.

Por ser um homem solitário, conta com a companhia de uma diarista simpática que se importa bastante com seu estado de espírito, logo na notícia da morte de seu amigo ela dá seu apoio; sua amiga Maju (Dira Paes) tem uma relação que traça um paralelo entre o distante e o íntimo, já que praticamente os dois se falam mais por telefone do que em companhia um do outro. Mas quando se encontram é como se nunca estivessem em nenhum momento sequer estado separados, trocando confidências e brincando como velhos e grandes amigos. Um incentiva o outro para levar uma vida mais feliz, mesmo que nem sempre tudo seja tão fácil.

Mas os momentos mais sublimes, simpáticos e choráveis que podem ser encontrados durante os noventa minutos de filme se dão quando Téo faz uma jornada de uma loja de brinquedos, onde busca um presente de aniversário para o filho de Maju e dialoga inteligentemente com um garoto que por lá encontra sobre super heróis e seus próprios conflitos até chegar pela casa de seu antigo e, agora, falecido amigo de infância, onde ao receber alguns livros de “herança”, diversas lembranças são reconstruídas em sua mente misturando alegria com tristeza. Pequenas coisas grandes acabam se tornando inesquecíveis, por mais que sejam dolorosas. Os Amigos enfoca muito mais na construção emocional de seu protagonista do que qualquer coisa. E a direção do filme é bastante honesta com o espectador, sendo muito precisa e ágil.

O roteiro é bacana e busca inspirações não só no texto já citado acima, mas também traz referências interessantes, sobretudo aos super heróis; a trilha sonora tem uma grande harmonia com as cores escolhidas pela arte e a caracterização do passado não soa em nada caricato, mas sim sutil. A fotografia também tem ótimos momentos com seus planos abertos, muito interessantes e profundos. A estética utilizada também favoreceu a montagem, dando leveza natural à narrativa e infiltrando-se nos sentimentalismo necessário a ser observado do protagonista e seus coadjuvantes. E como não poderia deixar de ser, o elenco é bastante competente, Ricca e Paes tem uma grande química em cena e realmente parecem ser grandes amigos que se conhecem há tempos; Alice Braga também consegue despertar sorrisos inconscientes com suas poucas palavras. Destaque também para o ator Giulio Lopes em uma sequência incrível onde vemos um dos fatos do passado serem revelados.

Carregado de grande sensibilidade, reflexões e ótimos atuações, Os Amigos é um filme que merecia mais atenção por parte do público. O filme traz boas discussões para serem feitas consigo mesmo e leva o espectador a se perguntar constantemente se sua vida vale a pena do jeito que está ou se não seria melhor seguir por um outro caminho onde possa se sentir melhor. Pois bem, só assistindo para saberem se Téo conseguiu encontrar sua resposta.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.