19
abr
2015
Crítica: “Chappie”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcela Galvão
Chappie
Neill Blomkamp, 2015
Roteiro: Neill Blomkamp e Terri Tatchell
Sony Pictures

3.5

Algumas muitas cópias aqui e acolá, no meio disso, uma ideia original. Muita ação, efeitos visuais incríveis, uma distopia retratada no avanço da tecnologia e na desigualdade social. Algum humor negro, algum sotaque. OK, temos um filme do Neil Blomkamp. Agora junte o Neil Blomkamp + uma banda sul-africana de rap-rave. OK, temos = Chappie.

Chappie é, no mínimo, curioso.

Veja este pôster, caro leitor. Veja este trailer. Veja estas… armas cor-de-rosa. Epa, Hugh Jackman! E espere, aquele é o Dev Patel? Olha só, Veja este robô – “a última esperança da humanidade” – com… correntes de ouro no pescoço?…

Em um futuro não muito distante, os policiais foram substituídos por robôs de uma empresa terceirizada (achei legal o detalhe, sei lá ) e tudo ocorre muito bem. Eles são extremamente funcionais e toda a população sente-se segura; Só o criador destes robôs está procurando por mais: Deon Wilson (interpretado por Dev Patel) cria uma inteligência artificial e integral para os robôs, uma consciência.

Entretanto, no momento em que o robô cria uma consciência, ele nasce como uma criança: precisa ser ensinado, desde a fala, até a valores e costumes. Eis que o primeiro teste de um robô com consciência cai nas mãos de um grupo de gangsteres, interpretados por Jose Pablo Cantillo como Amerika, Ninja e Yolandi, ambos da banda Die Antwoord.

Eu devo iniciar a minha crítica confessando que sou uma grande fã da banda e que vou tentar ser o mais imparcial possível, listando todos os aspectos negativos e positivos desse filme, até dar o meu veredicto.

Chappie é um filme cheio de cópias. Eu disse cópias. Não há outro nome. ‘Interestelar‘ (2014), por exemplo, foi influenciado por ‘2001 – Uma Odisseia no Espaço’ (1968), mas Chappie… Chappie não parece ter sido influenciado. Já ouviu falar em ‘Os Vampiros Que Se Mordam’ (2010) ou ‘Jogos Famintos’ (2013)? Então. Existem algumas coisas tão milimetricamente copiadas – vindas de ‘Eu, Robô’ (2004), ‘RoboCop – O Policial do Futuro’ (1987), ‘Appleseed’ (2004), ‘Transcendente’ (2014) – que parece uma dessas paródias de humor! É claro que já vimos isso em ‘Distrito 9’ (2009), mas aqui está em uma escala muito maior.

Sobre as personagens: ainda que o personagem Vincent, interpretado por Hugh Jackman, tenha sido o mais criticado de todos, ele talvez seja na verdade o mais plausível: um ex militar que fica vingativo e obcecado? Não duvido. Contudo, o jovem cientista (Dev Patel) que ama sua criação, não me convence; Sigourney Weaver está automática como em todos seus últimos…sei lá, 10 filmes? E quanto a Ninja e Yolandi… bem…

O produtor do filme, Simon Kinberg, disse: “Die Antwoord de alguma maneira desafia qualquer definição. Você precisa conhecê-los para entender o que eles farão, porque são completamente únicos”. Bom, a minha opinião é que Neil Blomkamp assistiu ao curta metragem deles de 2011 (o “Umshini Wam”, traduzido como “Bring me my machine gun”, que foi dirigido por Harmony Korine, conhecido por seus filmes confusos e psicos), ficou completamente maravilhado e disse: “Eu quero isso no filme. Tudo isso!” E Pum, colocou. O resultado, assim como para Die Anwoord e para Harmony Korine, ficou como 8 ou 80 – uns adoraram, outros detestaram. Eu particularmente adoro a estética de Die Antwoord; acredito que tenha dado um brilho a mais no filme além de ajudar a se diferenciar dos demais já feitos pelo diretor. Apesar da interpretação dos dois não ser das melhores , vê-los em um longa metragem valeu muito a pena. Não só para os fãs da banda ( \o), mas para todos os outros que gostam de coisas extravagantes.

Mas o maior problema de todos é certamente o roteiro. Se eu pudesse colocar Chappie em um gênero, eu o colocaria em “comédia”. Chappie tem cenas extremamente engraçadas, mas a transação de engraçado para dramático e depois para violento é rápida demais, não dando um ritmo e nem um tom ao filme. É claro que, de novo, isso já aparece em Distrito 9 (quando passa de um filme com um estilo de guerra para um estilo mais gore), só aqui é muito mais visível. A banda Die Antwoord geralmente costuma se identificar como sendo do estilo ZEF, que seria quando você não liga a mínima para o que os outros pensam de você. Eu acho que, de tanto admirá-los, Neil Blomkamp quis colocar isso em prática, escrevendo o filme junto a sua esposa como se fosse um adolescente fan de filmes. A verdade é que me parece que ele só estava tentando se divertir. Bem, eu não vejo mal nisso, uma vez que eu acabei me divertindo muito no filme. Ainda assim, mais propriamente falando sobre técnica no cinema, o roteiro é muito, mas muito mal escrito.

Apesar de tudo isso, eu gostei do filme. A verdade é que, quando eu saí do cinema, eu queria dar 10, ver de novo, chegar em casa e baixar pra ver de novo! A trilha sonora com músicas de Die Antwoord e de Hans Zimmer é simplesmente sensacional! As cenas de ação são incríveis – se em Distrito 9, com um orçamento de 30 milhões de dólares, ficou como ficou, imagina num filme feito pelo Blomkamp com 135 milhões?? Sem falar no motion capture de Chappie, que foi interpretado pelo qual já nos é conhecido, Sharlto Copley, que conseguiu criar uma expressão corporal para o robô com sentimentos esplendido.

Mesmo com muitos errinhos, Chappie é um filme que eu recomendo para ir ao cinema. Existem muitas cenas tocantes, muitas cenas engraçadas, e a maioria de se encher os olhos. Agora, devo dizer: fico preocupada com o diretor, Neil Blomkamp. Apesar de ter recebido muita fama e boas críticas nos últimos anos, fincou-se muito fortemente em seu estilo de filme, tão facilmente observável com Distrito 9 e com o terrível Elysium. Estão sendo cometidos erros atrás de erros, e, para um diretor tão novato, há uma grande chance de ser tachado pejorativamente e ninguém quer jogar no mesmo time no Michael Bay, certo?

Ficamos agora, esperando as próximas surpresas do diretor.



Fã de Nolan, Kevin Smith e Von Trier. Chora em "Toy Story", assiste Grease toda vez que está passando na televisão e tem pavor de filmes com animais falantes. Torce pra a dominação alien sobre a Terra.É cinéfila e nas horas vagas, estudante de direito.