06
abr
2015
Crítica: “Do Lado de Fora”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Do Lado de Fora
Do Lado de Fora
Alexandre Carvalho, 2014
Roteiro: André Meirelles Collazzi
Elo Company

2

Sempre me atenho a não fazer críticas de filmes nacionais que considero fracos. Muita gente já tem um preconceito enorme com nossas produções e não gosto de, de certa forma, propagar esse ódio inconveniente. Acontece que Do Lado de Fora me decepcionou tanto que preciso comentar a respeito. O filme parte de uma ideia bastante interessante, mas tem uma execução totalmente falha e por ora bastante inverossímil.

Depois de participarem da parada gay e socorrerem Roger (André Bankoff) de um bando de agressores homofóbicos, Rodrigo (Mauricio Evanns), Mauro (Luis Fernando Vaz) e seu tio Vicente (Marcello Airoldi) prometem em um brinde que na próxima parada gay todos irão “sair do armário”. Acontece que, movidos pelo impulso, eles aceitam mas nenhum parou para pensar que talvez se assumir pudesse ser uma tarefa difícil. A partir daí, o espectador acompanha a vida de cada um desses personagens em busca de cumprir tal medida.

Vicente é um empresário que teme que seu chefe, o francês Pierre acabe não gostando de saber sobre sua orientação sexual, convidando uma de suas melhores amigas para fingir ser sua esposa durante um jantar de negócios.

Roger é casado, tem um filho pequeno e sua esposa acaba de descobrir que está grávida. Como se não bastasse, sua sogra Vera (Silvetty Montilla) vem morar com a família a fim de ajudar com a saúde da filha.

Mauro e Rodrigo são bastante amigos. Rodrigo é bastante tímido e quieto, mas impulsionado por seu melhor amigo acaba se soltando um pouco e revelando seus sentimentos por um colega de escola. Mas Mauro, que propôs toda a brincadeira inicial e tem o sonho de ser drag queen, vive em uma família de religiosos bastante intolerantes.

Os personagens tem uma motivação de união retratada de forma instigante. Tudo isso se perde com o passar dos minutos para se investir cada vez mais nos esteriótipos de cada um deles. Há o machão que tenta não dar pinta e que pensa que se difere dos outros; há o dançarino musculoso que quase sempre é retratado semi-nu; há o mais afetado, que sonha em ser drag queen e que tenta puxar situações cômicas para si. Todos os conflitos são simplesmente jogados, mas não desenvolvidos. Quase tudo acontece de forma inverossímil, bem distante da realidade e se apegando às coincidências da vida, como quando à procura de roupas para um show, Mauro encontra o brechó de um casal de mulheres, onde uma delas (Titi Muller) tem um blog para falar sobre homofobia e se revolta com certas situações apresentadas por outros personagens ligados a este. Embora seja importante essa representação dentro do longa, mostrando o engajamento de pessoas com a causa LGBT, fica vago no sentido desenvolvimento, quando as duas parecem estar completamente alheias ao restante de personagens e tramas anteriormente apresentadas.

Além do roteiro completamente falho, mas – confesso – divertido em certos momentos, a fotografia não apresenta novidades, é bastante simples, com planos limpos, mas básicos. Os cenários são caracterizados da mesma forma discreta, algo que pode até ser entendido pela falta de verbas no orçamento. Falta criatividade, isso é visível. A direção do filme é tão básica quanto os outros aspectos aqui discutidos, investindo muito no clássico plano e contra-plano.

Com várias ideias interessantes e pertinentes nas mãos, o que o espectador visualiza no final das contas é uma obra com personagens caricatos com motivações em comum e sonhos diferentes. É possível que o público se identifique com alguns deles e com isso acabe gostando muito mais do filme, mas se caso não ocorrer, vai reparar nas inúmeras falhas que estão envolvidas no processo. Um ponto para o filme por querer tratar de questões importantes como o combate à homofobia, a condição de auto aceitação e etc, mesmo que este discurso seja bastante problemático no contexto cinematográfico e outro ponto para as cenas cômicas da humorista/atriz/drag Silvetty Montilla, interpretando a sogra de Roger, na minha opinião, o ponto forte do filme.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.