31
maio
2015
Crítica: “Vidas ao Vento”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
 Vidas ao Vento
Vidas ao Vento (Kaze Tachinu)
Hayao Miyazaki, 2013
Roteiro: Hayao Miyazaki
Califórnia Filmes

4

Sou fã da filmografia de Hayao Miyazaki. O co-fundador do Studio Ghibli tem filmes incríveis e deslumbrantes em sua carreira como Princesa Mononoke (1997), A Viagem de Chihiro (2001) e O Castelo Animado (2004), animações necessárias para toda e qualquer pessoa. Nos seus filmes podemos perceber vários de seus fascínios, entre eles as máquinas voadoras. Miyazaki sonha com seus aviões, dirigíveis, balões, ou qualquer outra coisa que voe ou flutue pelos céus. Sendo assim, nada mais justo do que homenagear um grande engenheiro da aeronáutica em seu último filme. Sim, é o último filme do mestre da animação 2D e portanto também tive uma certa tristeza no final do longa. O bom é que ele já se eternizou em sua arte e podemos rever todos os seus filmes a hora que quisermos, mas fica também ainda o sentimento de “Miyazaki, a animação precisa de você!”

O longa é um drama  biográfico animado que retrata a infância, adolescência e boa parte da vida do engenheiro aeroespacial japonês, Jiro Horikoshi. O roteiro, no entanto, difere-se de alguns pontos da realidade, como li em algum site que não me recordo, sobre tal personalidade. São pequenos pontos que foram mudados para dar mais conflitos a serem trabalhados, com maestria pelo diretor que também roteiriza.

Neste filme, temos diversos cenários históricos de fundo, como guerras, crise de 1929, revoluções e avanços tecnológicos da época. Acompanha-se a vida de Jiro Horikoshi desde sua infância cheia de sonhos com a aviação, à adolescência quando em uma viagem de trem ocorre uma explosão e ele salva uma tia e sua sobrinha, passando por seus devaneios e fase criativa de desenhos até chegar no momento em que reencontra uma garota na fase adulta por quem se apaixona. No poster podemos vê-lo beijando a moça que pinta algo em uma tela. O caos (da teoria) é um fator que impulsiona bastante a trama. Apesar de controvérsias, pode-se afirmar que o sonho de Jiro era desenhar e projetar aviões e apenas isso, nem que estes fossem usados para fins os quais ele não estava ciente ou não concordava. Seu sonho era esse e ele seguiria a qualquer custo. Aviões de papel também estão presentes no longa.

Um traço interessante a ser observado na brilhante animação do Studio Ghibli que dispensa comentários, é a diferenciação das personagens de nacionalidades diferentes. Os protagonistas e familiares destes tem traços típicos de outros filmes de Miyazaki, enquanto outras personagens como o alemão Castorp e o italiano Caproni tem sua aparência mudada, o que deixa tudo ainda mais próximo da realidade. A animação, marca forte de qualidade do Studio, continua sendo deslumbrante, fluida e os movimentos de cada ser dentro da tela são milimetricamente bem orquestrados. Aqui temos em diferentes instantes, o movimento do vento batendo em folhas, grama, roupas; tudo é bastante suavizado. O diretor é um grande amante das máquinas voadoras e isso é visível em diversos momentos do filme, algo que pode tornar maçante aos menos curiosos e interessados no desenvolvimento de aviões e afins.

Vidas ao Vento concorreu ao Oscar de Melhor Animação de 2014 e embora não tenha ganhado, é um excelente desfecho de carreira para um cineasta tão importante, que resolveu contar uma história envolvida em um tema que gosta tanto. Aliás, o filme não é o último do Ghibli Studio, já foram lançados outros dois antes do hiato da produtora.

Em síntese, com uma belíssima trilha sonora (mais uma vez de Joe Hisaishi), roteiro bem amarrado e a animação incrível, deixando nossos olhos deslumbrados, Vidas ao Vento encerra a carreira de um mestre no ramo da animação com muito requinte e uma boa história, que mesmo sem toda a fantasia construída em outros longas, mantém o espectador confiante e encantado.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.