30
jun
2015
Crítica: “Corrente do Mal”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcelo Silva

Corrente do Mal (It Follows)

David Robert Mitchell, 2014
Roteiro: David Robert Mitchell
Northern Lights Films & Animal Kingdom

3.5

Dois milhões de dólares. Esse valor irrisório para os padrões hollywoodianos era tudo que David Robert Mitchell possuía para dirigir seu filme. Felizmente, o orçamento extremamente limitado não foi desculpa para um longa-metragem ruim. Muito pelo contrário, pois, no que é apenas o terceiro projeto da sua carreira, Mitchell engendra um terror metafórico e digno de ser visto – seja pelas referências às obras oitocentistas do gênero, seja por se tratar de uma produção infinitivamente superior às que são apresentadas nos dias de hoje em franquias descartáveis e semi-amadoras, feitas sem um único pingo de qualidade.

Em Corrente do Mal, somos apresentados a Jay (Maika Monroe), uma jovem que leva uma vida despreocupada no subúrbio de Detroit. Mas, depois de um encontro sexual incomum, ela se vê atormentada por estranhas visões e um sentimento constante de que alguém ou algo está seguindo-a. Confrontada com este fardo, Jay, com a ajuda de seus amigos, deve encontrar uma maneira de escapar da morte que parece estar a poucos metros de distância – seguindo-a incansavelmente.

Não seria mentira dizer que início é relativamente lento. Apesar da extasiante cena inicial, a apresentação da realidade e do cotidiano de Jay não chega a ser muito empolgante. Muito dessa falta de atração deve-se a Maika Monroe, que demora para convencer no papel principal, surgindo, a princípio, como uma moça apática – o que muda com a introdução de Hugh (vivido por Jake Weary), personagem cuja função é introduzir o mal que servirá de fio condutor para a história. A partir desse momento, Maika incorpora com maestria o desespero e o pânico em seus gestos minuciosamente calculados e a narrativa ganha contornos macabros, entrando em ação também o talento do diretor David Robert Mitchell.

Utilizando movimentos lentos  com a câmera, o cineasta sabe como poucos explorar a tensão existente no ambiente. Ao contrário de muitos profissionais que abusam de uma trilha sonora burocrática para tentar envolver e até assustar o espectador , ele delega ao silêncio essa função. Grande parte do filme é desprovida de música, surgindo, esporadicamente, um ou outro ruído de efeito angustiante. Note, no momento em que Jay vai até a cozinha verificar o que quebrara o vidro da janela, como o som vai surgindo de maneira sorrateira e crescente na forma de uma leve batida. Antes de o público perceber tal recurso, ele já se vê totalmente tomado pelo mais primitivo e obscuro dos sentimentos: o medo.

O roteiro apresenta, ao mesmo tempo, pontos altos e baixos. Pelo lado positivo, evidencia-se a metaforização da trama. A estranha criatura que segue incessantemente suas vítimas não é apenas o tradicional monstro de filme de terror – ela representa muito mais do que isso. Os mais atentos podem juntar as peças e perceber que se trata de uma alegoria da AIDS. Em primeiro lugar, a maldição é transmitida através do sexo. As outras pistas consistem no fato de a entidade maligna ser invisível (o vírus HIV, na maioria dos casos, é assintomático, ou seja, sua existência não é notada) e poder assumir qualquer forma (a doença faz-se presente em crianças, jovens, adultos, homoafetivos, héteros, etc.).

Em uma época habitada por roteiros de terror que usam e abusam dos recursos mais pobres possíveis – como o desgastado uso do found footage, a estratégia da câmera na mão dos personagens que pode ser vista em filmes como A Bruxa de BlairAtividade ParanormalO Herdeiro do Diabo (todos horríveis) – , é de se aplaudir a criação de uma obra com um pingo de complexidade temática e que dê espaço para o público deixar de ser passivo e se tornar ativo na construção  da história, já que o final, além de deixar pontas soltas para uma eventual sequência, é aberto a interpretações.

Pelo lado negativo, a narrativa traz alguns deslizes que são difíceis de perdoar. O primeiro deles diz respeito ao grupo de amigos da protagonista Jay. Formada por  duas mulheres e dois rapazes, a turma de fiéis companheiros não demonstra um único traço de carisma – a verdade é que metade deles poderia desaparecer do roteiro que não faria alguma diferença. Com o tempo gasto para acompanhar as ações desses jovens. Mitchell, que, além de diretor, também foi o roteirista, poderia ter inserido os pais de Jay no arco dramático do filme. Afinal, uma adolescente passar por tudo aquilo sem a presença ou a intervenção dos pais soa extremamente inverossímil. Mesmo que o seu desejo fosse focar no universo juvenil, é absurda a ideia de Mitchell de reduzir o papel dos adultos a alguns retratos na parede.

Por fim, vale destacar a ambientação de Corrente do Mal. O subúrbio, as casas, as TVs antigas e os veículos lembram os anos 1970 e 1980, uma realidade que muito lembra as produções antigas de terror slasher, como Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter, e A Hora do Pesadelo, de Wes Craven. Contudo, a existência de alguns aparelhos eletrônicos (repare bem no artefato tecnológico utilizado por uma das amigas da protagonista) que soam estranhos até mesmo para os tempos de hoje comprovam o caráter atemporal da trama.

Apesar de estar longe de ser perfeito, Corrente do Mal constitui-se como uma das melhores obras de terror dos últimos anos. Assim que você assistir, pensará duas vezes antes de fazer sexo com qualquer um. Caso esteja sendo seguido incessantemente, a única dica que eu lhe dou é: faça sexo urgentemente! (assista logo ao filme e saberá do que falo)



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!