10
jun
2015
Crítica: “Mad Max: Estrada da Fúria”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Marcelo Silva
Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road)
George Miller, 2015
Roteiro: George Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris
Warner Bros & Village Roadshow Pictures

4

Mad Max começou como um filme de orçamento limitadíssimo estrelado pelo até então desconhecido Mel Gibson. Com a aclamação da crítica, as sequências, com nítidos contornos hollywoodianos, tornaram-se inevitáveis (com direito até à participação da rockeira Tina Turner em uma delas). A série ficou imortalizada na cabeça dos fãs e reverenciada como uma das melhores dos anos 80.

Trinta anos depois do lançamento de Além da Cúpula do Trovão, a nova aventura traz um atormentado Max (Tom Hardy) que acredita que a melhor maneira de sobreviver é vagar sozinho. No entanto, ele é levado por um grupo em fuga através de Wasteland em um War Rig (carro de guerra) dirigido por uma Imperatriz de elite chamada Furiosa (Charlize Theron). Eles estão fugindo de uma cidadela tiranizada por Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que teve algo insubstituível roubado. Enfurecido, o senhor da guerra convoca todas as suas gangues e persegue os rebeldes impiedosamente na estrada de guerra que se segue.

George Miller, que já demonstrou ser um diretor competente ao fazer bons filmes dos mais variados gêneros, sente-se à vontade para expandir o universo que ele mesmo criou. Ao optar por utilizar veículos reais em tela – em vez de puro CGI – , Miller confere um realismo vibrante às cenas de ação, estas muito bem filmadas e que, em nenhum momento, lembram os ângulos esquisitos e a câmera trêmula que são características de cineastas como Michael Bay. Além disso, o diretor australiano consegue a proeza de fazer do bizarro um atrativo a mais – ver um guerreiro com uma guitarra flamejante em meio à perseguição é, com o perdão da palavra, irado.

O roteiro, escrito a seis mãos, concentra-se mais na ação frenética do que no desenvolvimento dos personagens. Mas isso não significa que eles são rasos e descartáveis.
Mesmo sem grandes diálogos, Tom Hardy injeta carisma, vigor físico e instabilidade psicológica ao seu Mad Max, uma versão inquestionavelmente superior à de Mel Gibson; ao passo que Hugh Keays-Byrne surge amedrontador como o líder totalitário e populista Immortan Joe, um vilão parecidíssimo, tanto no figurino quanto no trabalho de dicção, com Bane, de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge – será que Hardy andou lhe dando umas dicas?
Contudo, em meio à opulência dos corpos masculinos, quem rouba a cena é a Imperatriz Furiosa, vivida por Charlize Theron (perfeita no papel). Dona do arco dramático mais relevante da narrativa, Furiosa surge como uma espécie de rebelde feminista que questiona o despotismo de Immortan Joe e o modo como ele trata as várias esposas que tem (“nós não somos objetos”, diz uma dessas mulheres em determinado momento). Desde Kill Bill, não se via uma personagem feminina tão expressiva quanto a de Theron, uma verdadeira prova do diferencial dessa produção de George Miller em relação a outros filmes de ação, que, geralmente, reduzem o papel da mulher a um rostinho bonito a ser salvo pelo herói.

A parte técnica é irrepreensível. John Seale, diretor de fotografia, consegue retratar com perfeição as cores do deserto. Os efeitos especiais são usados de maneira contida e não têm nada de inverossímeis, gerando, junto com o trabalho de Seale e a direção de arte, um verdadeiro delírio visual em tela. Graças à boa edição e mixagem, o som deixa de ser apenas um acompanhamento para a imagem e se torna essencial para a grandiosidade das cenas de perseguição automobilística, com direito a motores estridentes, colisões fatais e tiroteio contínuo.

Em um mundo habitado por blockbusters como Transformers, Battleship e G.I. Joe, encontrar uma produção que divirta e não insulte a inteligência do espectador é motivo de comemoração. Resta torcer para que o combustível de George Miller seja suficiente para que Max e Furiosa voltem a fazer barulho nas salas de cinema em um futuro próximo.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!