18
jun
2015
Crítica: “The Babadook”
Categorias: Críticas • Postado por: Convidado Especial
The Babadook
Jennifer Kent, 2014
Roteiro: Jennifer Kent
IFC Films

4

Não seria nenhuma mentira dizer que, nos últimos tempos, boa parte dos filmes de terror começou a adotar a tática do jump scare. Para aqueles cineastas sem criatividade, o método é uma mão na roda – quase uma garantia de sucesso nas bilheterias. Esse recurso consiste, basicamente, na utilização excessiva de sustos gratuitos, valendo-se normalmente de sons inesperados, violência gratuita e truques gráficos baratos. O objetivo é fazer com que o espectador reaja, sempre que possível, com um pulo na cadeira e com o coração saltitando pela boca. O terror mainstream já gozara de mais prestígio, mas acabou se transformando em um cinema tosco de sustos, cheio de filmes irrelevantes e descartáveis. A receita para o terror psicológico fora praticamente abandonada, e o que prevalece agora são os Atividades Paranormais da vida. Não que o terror do século passado, enquanto um gênero cinematográfico relevante, não utilizasse esses artifícios, mas, com certeza, não se resumia a isso. Muito felizmente, “The Babadook”, 2014, pertence ao escaninho dos filmes de terror de qualidade e não ao dos filmes irrelevantes de susto.

Na trama, Amelia (Essie Davis) é a frágil e conturbada mãe de Samuel (Noah Wiseman). O filho, de sete anos, tem um comportamento dificílimo, por vezes, imprevisível e violento. Uma das razões dessa conduta são os pesadelos que Samuel sofre. Nestes sonhos, ele é incessantemente assombrado por um monstro. Por causa disso, ele passa a acreditar piamente que este monstro irá, a qualquer hora, matar ele e a sua mãe. Como toda criança que tem medo de monstro, a mãe se vê na obrigação de protegê-lo da ameaça, mesmo que esta ameaça seja, aparentemente, fruto da imaginação do filho. Antes de dormir, a mãe busca confortá-lo, seja com a leitura de histórias; seja mostrando, para Samuel, que não há nenhum monstro escondido dentro do armário, ou embaixo da cama. Certo dia, após a leitura de um livro bizarro chamado “The Babadook”, Samuel fica convicto que é o monstro do livro – o Babadook – que está atrás de sua família e, como resultado, seu medo fica completamente focado na figura do monstro.

Ambas personagens são apresentadas como pessoas bastante perturbadas emocionalmente. A angústia de Amélia se deve a trágica perda do marido, que morreu em um acidente de carro enquanto a levava – em trabalho de parto – rumo ao hospital. Desde o lamentável episódio, Amelia foi contaminada por um misto sentimento de culpa e ressentimento, o que acabou impactando profunda e negativamente a sua relação com o filho. É como se ela condenasse, em uma parte, o Samuel pela perda de seu companheiro e, em outra parte, a si mesmo. Ao receber um abraço mais afetuoso de Samuel, por exemplo, a mãe impaciente repreende o filho e, ao mesmo tempo, arrepende-se pela truculência. O fardo da morte do esposo é reforçado a todo momento, Amelia se recusa a falar sobre a tragédia com sua irmã; quando sua vizinha cita o falecido, ela fica irritada e a responde de maneira ríspida; o aniversário de Samuel nunca é festejado no dia certo; o porão da casa fica abarrotado com os pertences do ex-marido que ela não conseguiu se desfazer. A fatalidade criou um monstro temeroso para a vida de Amelia. Conforme esse fardo é apresentado, a presença de Babadook se instaura e se intensifica – chegando ao ponto de ambos ficarem completamente paranóicos e surtados. Todos temos os nossos monstros para enfrentarmos e alimentarmos, parece ser a mensagem. Babadook serve como uma metáfora para o fardo de Amelia, mas, simultaneamente, representa também uma ameaça para Samuel.

O filme, de produção australiana-canadense, é dirigido e escrito pela novata Jennifer Kent. A execução do filme é primorosa. A paleta de cores, a sonoplastia, a iluminação e os enquadramentos escolhidos trazem um tom lúgubre e carregado, casando perfeitamente com a atmosfera horripilante do enredo. Nada é à toa. Quer dizer, é uma boa história com uma boa direção. Vale dizer que as atuações também estão excelentes – principalmente a de Essie Davis. Em alguns momentos do filme, no entanto, os diálogos poderiam ser melhor trabalhados. Não que eles sejam ruins, mas algumas oportunidades de aprofundamento da psique das personagens são perdidas com diálogos, às vezes, simplórios.

Uma última observação digna de nota é que todos os elementos do filme contribuem para a confecção de uma linha tênue e obliterada entre o terror fantasioso e o terror real. “The Babadook” é o resgate da verdadeira receita do terror psicológico.

Autor da crítica: Lucas Braga, fã do Pipoca Radioativa.



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