28
jun
2015
Os mundos do Studio Ghibli!
Categorias: Especiais, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin

Recentemente ocorreu um evento organizado pelo departamento de História da Universidade Estadual de Londrina, da qual sou aluno (deste curso inclusive), sobre os estudos da imagem em diversos campos. Foram quatro dias de várias apresentações de trabalhos, mesas e palestra sobre o tema. Entre descobertas e redescobertas através dos temas desenvolvidos por alunos de diversas instituições de ensino do Brasil (pra quem gosta de sotaques, o evento foi um prato cheio… ops) encontrei Sandman de Neil Gaiman, esteriótipos brasileiros em filmes hollywoodianos, cultura cigana e obviamente, o cinema, explorado em todas as suas formas. E o tema principal proposto para os trabalhos deste tipo era a imersão desta arte no mundo dos sonhos. Eis que assistindo às mesas encontrei um trabalho sobre os filmes do Studio Ghibli, do qual sou bastante fã (e outros sobre Dogville de Lars von Trier, Azul é a Cor Mais Quente de Abdellatif Kechiche, Medianeras de Gustavo Taretto e Onde Vivem os Monstros de Spike Jonze, mas que ficam para um outro post) e fiquei inspirado em escrever a respeito tanto do trabalho quanto dos filmes. Vamos lá!

Chihiro-Yubaba

O trabalho do professor Marcelo Castro Andreo trouxe à tona a discussão da existência de mundos paralelos em quatro filmes importantes do Studio Ghibli: Meu Vizinho Totoro (1988), Princesa Mononoke (1997), A Viagem de Chihiro (2001) e Ponyo (2008). O mundo secundário seria um mundo onde o surreal aconteceria livremente, mas que quando tais personagens fossem trazidos ao mundo real, o primário, a veracidade do que ocorreu no mundo secundário poderia ser questionada, tendo em vista que trata-se de um mundo imaginário.

Em sua apresentação, o professor utilizou-se de diversas passagens dos filmes, mas a mais interessante fora a de A Viagem de Chihiro, onde há um túnel, ou seja, uma barreira física entre os dois mundos, por onde o carro onde está Chihiro atravessa e eles vão parar no mundo secundário, onde Chihiro precisa trabalhar, seus pais são transformados em porcos ao comerem determinadas comidas em uma barraquinha e entidades misteriosas aparecem, como é o caso da Kaonashi (Sem-Rosto). SPOILER: A imagem do final do filme com a grama crescida ao redor do túnel sugere que certo tempo passou-se deixando um pensamento sobre a veracidade da narrativa que se passou. Caso queira ler os trabalhos completos (e especificamente a pesquisa do Marcelo, clique AQUI – só dar Ctrl + F e procurar por Hayao Miyazaki).

hayao-miyazaki-retire-the-wind-rises1

Os filmes do Studio Ghibli me fascinam de diversas formas. Ano passado, inspirado por um certa maratona feita aqui no Pipoca Radioativa, resolvi também assistir a todos os filmes do estúdio e fazer críticas sobre eles (no meu antigo blog). Sobrou só uma crítica em vídeo de A Viagem de Chihiro (que pode ser conferida AQUI). Nesta maratona me aprofundei ainda mais nos mundos desenvolvidos tanto pelos diretores fundadores Hayao Miyazaki e Isao Takahata, quanto outros que trabalharam com eles ao longo dos 30 anos de fundação do Ghibli, como Goro Miyazaki, Yoshifumi Kondō, Hiromasa Yonebayashi e Hiroyuki Morita. A qualidade que os mesmos têm em criar narrativas consistentes e de animação são incríveis.

Começando por alguns filmes precedentes, O Castelo de Cagliostro (1979) e Nausicaä do Vale do Vento (1984), ambos dirigidos por Miyazaki antes da criação do Studio, tratam de temas distintos, com imagens deslumbrantes de encher os olhos e histórias muito bem construídas, com personagens bastante cativantes. Inclusive, há uma curiosidade entorno da criação de Nausicaä: Miyazaki fora obrigado a criar o mangá para só então produzir o filme. A editora Conrad, responsável pela publicação do mangá no Brasil, no entanto, só traduziu até o 5º volume de 8, sendo esses encadernados muito difíceis de se encontrar pelo país. Já O Castelo de Cagliostro traz à tona um personagem antigo de Miyazaki, que possuía um seriado famoso na televisão japonesa. A história tem toques muito reconhecíveis no enredo que remetem às “aventuras” de Sherlock Holmes – o personagem com mais filmes da história do cinema.

 

Ghibli criado em Junho de 1985, surge o primeiro filme da produtora: O Castelo do Céu, dirigido por Hayao Miyazaki. O filme traz uma história com cenários e toques de steampunk e máquinas voadoras, característica marcante de seu diretor. Nele conhecemos Sheeta, uma garota que cai misteriosamente do céu (e literalmente) para os braços de Pazu, um garoto morador de uma pequena cidade nas montanhas. Este encontro leva ambos a uma série de aventuras provocadas pela perseguição de piratas do ar e do exército á Sheeta, que acabam numa busca pela identidade dela e pelo misterioso castelo no céu, o Laputa. Neste longa, Miyazaki busca referências constantes em As Viagens de Gulliver, livro de Jonathan Swift.

Na sequência, em 1988, Isao Takahata lança seu primeiro longa. Uma animação sobre guerra, bastante forte e sendo considerada até hoje a melhor neste quesito. O Túmulo dos Vagalumes trata da miséria do povo japonês em meio ao caos da Segunda Guerra Mundial, onde certos recursos de sobrevivência estavam escassos. Com a morte da mãe de dois jovens (Setsuko e Seita), eles são obrigados a terem que se virar com o pouco que possuem e com sua cumplicidade. E depois de uma animação tão forte e tocante como essa, eis que surge uma outra um pouco mais amena. Tratava-se de Meu Vizinho Totoro também em 1988, que viria a se tornar a logomarca da empresa. E, logo após Totoro, surgiu O Serviço de Entregas de Kiki em 1989, contanto a saga de uma jovem bruxinha em busca de cumprir seu destino.

PomPoko_scene_01

Em 1991, foi lançado o drama Omohide Poro Poro de Isao Takahata, que mostrava ser um diretor mais realista, fazendo um contraponto interessante aos trabalhos do parceiro Miyazaki, que desenvolvia em 1992, Porco Rosso, na minha opinião, seu filme mais fraco comparado a tantos outros incríveis. Takahata ainda fez em 1994, o longa Pom Poko que trazia uma crítica lúdica à extinção de espécies de guaxinins, fazendo referências aos longas anteriores do Studio Ghibli; Whisper of the Heart de 1995 foi o único filme de Yoshifumi Kondō produzido pelo Ghibli, pois o mesmo veio a falecer três anos depois; e em 1997, Miyazaki trouxe mais uma obra prima à tona: Princesa Mononoke, que é um dos meus filmes favoritos da vida toda, pelo conjunto da obra, com diversas críticas à sociedade e uma história linda.

No final dos anos 90, Takahata ainda lançou Meus Vizinhos: Os Yamadas, com uma técnica de animação diferente das já anteriormente apresentadas e trazendo uma história com toques de humor presente em situações cotidianas. Esta mesma técnica foi repetida em seu último longa lançado em 2014 (que eu ainda não vi), O Conto da Princesa Kaguya. Mas em 2001, eis que Miyazaki lança seu filme mais difundido mundo afora (pela quantidade de prêmios e indicações que recebeu), contando com a distribuição da Disney: A Viagem de Chihiro, que é o meu favorito do cineasta. O filme ganhou diversos prêmios em Berlim, Critics’ Choice Award, Oscar, Japan Academy Prize, Hong Kong Film Award, Stellie Award e Kinema Junpo Award.

whisper-2-1024x552

Logo após o sucesso de Chihiro filmes como O Reino dos Gatos (2002), de Hiroyuki Morita; O Castelo Animado (2004), também de Miyazaki, baseado nos livros de Diana Wynne Jones; Contos de Terramar (2006), de Goro Miyazaki, filho de Hayao; Ponyo (2008), de Miyazaki; O Mundo dos Pequeninos (2010), de Hiromasa Yonebayashi e Da Colina Kokuriko (2011), de Goro Miyazaki vieram à tona com histórias e temas diversos. Vale ressaltar que O Castelo Animado traz cenários que remetem, mais uma vez, ao steampunk e Ponyo faz uma dura crítica à poluição no mar, sendo um dos filmes mais infantis do estúdio, de certa forma. Goro Miyazaki, filho de Hayao, que desenvolveu dois filmes na carreira do estúdio, mas trabalhou em outras áreas dos filmes, não se saiu tão bem quanto o pai em seus longas. Contos de Terramar tem problemas com direção e um roteiro fraco, mas possui uma animação interessante e instigante, que nos faz acreditar no filme e Da Colina Kokuriko tem um roteiro bastante atrativo, mas com uma direção fraca.

Cena de "O Mundo dos Pequeninos"

No final, O Mundo dos Pequeninos é um dos filmes mais singelos do estúdio, com uma história baseada no romance de Mary Norton. Em 2013, Miyazaki se despediu do cinema (se aposentando) com o polêmico Vidas ao Vento, contando a história do famoso projetista Jiro Horikoshi, amante dos aviões e máquinas voadoras no geral, característica em comum com Hayao. O filme tornou-se polêmico em torno da discussão de tal personalidade ter criado diversos aviões para a guerra. Foi indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2014. Os dois últimos filmes do Studio Ghibli (ainda não vistos por mim), O Conto da Princesa Kaguya e As Memórias de Marnie, parecem deixar um gostinho de saudade nesse tipo de animação. O estúdio entrou em hiato recentemente e não se sabe quando voltarão à ativa. Antes que eu me esqueça, vale também se lembrar de Joe Hisaishi, responsável pela maioria das trilhas sonoras dos filmes e Toshio Suzuki que atuou diversas vezes como produtor.

Studio_ghibli_001

Sem dúvidas, o Studio Ghibli tornou-se o que é hoje graças à suas qualidades técnicas e criativas, deixando um legado muito rico para futuros animadores e cineastas. É o melhor estúdio de animação em 2D do mundo, trocando figurinhas sempre com o pessoal da Pixar nos Estados Unidos, o melhor em termos de 3D. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA reconheceu o trabalho de Miyazaki por duas vezes: Em 2001, premiando A Viagem de Chihiro e em 2015 com um Oscar Honorário pelo conjunto da obra. Isao Takahata já foi indicado algumas vezes com seus longas, mas até hoje não ganhou nenhuma estatueta na premiação.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.