28
jul
2015
Livro e Filme: As Horas!
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Matheus Benjamin

Normalmente seria irrelevante comentar em posts o paralelo de livros e filmes tendo em vista que boa parte de quase 120 anos de história do cinema se devem muito à adaptações literárias. Para fazer, então, algo diferente, vou falar do livro e do filme separadamente e depois, quem sabe, traçar um paralelo entre os dois, discutir alguns pontos que acho interessante e etc.

Nova pasta

Livro: As Horas, de Michael Cunningham. Companhia das Letras. 200 páginas. Skoob.

Filme: As Horas, de Stephen Daldry (2002). Roteiro de David Hare, Paramout.

O Livro

Escrito em 1998 e vencedor do prêmio Pulitzer de literatura de 1999, As Horas é um livro sobre três mulheres fortes (uma real e duas fictícias) interligadas atemporalmente por um romance: Mrs. Dalloway, escrito por Virginia Woolf, que acaba sendo uma das personagens centrais da narrativa. Logo em um dos prólogos mais lindos já lidos na minha vida, o autor narra o suicídio libertador de Virginia, nos anos 40. A título de curiosidade, o romance de Cunningham tem este nome, especificamente, por conta do título provisório de Mrs. Dalloway. A loucura, a morte, o amor “proibido” e inquietante, o existencialismo perpassam pela obra com facilidade em suas quase 200 páginas.

Nicole Kidman e Virginia Woolf

Nicole Kidman e Virginia Woolf.

Virginia Woolf nos anos 20 se dedica à escrita de um romance com uma personagem vivendo ao longo de um dia inteiro todas as suas indagações acerca das perspectivas de vida. Esta personagem está se preparando para dar uma festa nessa noite e, diversos temas recorrentes são abordados para narrar a história. Woolf está, de certa forma, em crise com o destino de seus personagens e divaga sobre o que deve ocorrer na narrativa. Nesse dia, Virginia irá receber a visita de sua irmã e seus sobrinhos para um chá e quer deixar tudo na mais perfeita ordem para quando os convidados chegarem.

Nos anos 50, Laura Brown é uma mulher simples de classe média que cuida do filho e do marido ao mesmo tempo em que se dedica e se delicia na leitura de um romance incrível escrito em anos passados. Angustiada, no dia do aniversário de seu marido, decide preparar um bolo para as comemorações e recebe a visita de sua vizinha, Kitty, por quem tem grande apreço. Motivada pelo livro de Woolf, ela toma uma decisão que rompe seus laços profundos em sua vida.

Por fim, nos dias atuais, conhecemos Clarissa Vaugh, uma editora de livros que sai de casa pela manhã para comprar flores e preparar uma festa que dará logo mais à noite. Ao encontrar-se com o amigo e escritor Richard, que sempre a chama por Mrs. Dalloway, já que possui o mesmo nome da protagonista deste livro, os dois discutem acerca dos últimos acontecimentos. Richard está doente e Clarissa faz de tudo para ajuda-lo, mesmo este não querendo e aceitando nenhum tipo de compadecimento. Com todos os seus problemas, a mesma lida também com questões envoltas em seus relacionamentos, principalmente os familiares com sua filha.

O leitor tem em suas mãos três histórias fascinantes a serem acompanhadas, com destaque para a saga de Woolf, a única personagem real e ao mesmo tempo a mais interessante, em minha singela opinião. À medida em que os capítulos avançam e as três histórias se cruzam, perpetuam-se as questões mais profundas apenas incitadas nas premissas. As três personagens se preparam para recepções, as três tem receios em falhar nessas recepções, as três recebem pessoas inesperadas em suas vidas e as três querem arranjar uma maneira de fugir de seus receios. Há uma melancolia latente e inquietante por toda a narrativa. Os personagens são construídos de maneira sagaz; todos são muito interessantes e envolventes. Há uma intertextualidade entre o romance de Woolf e de Cunningham que é reconhecível a olho nu, principalmente pra quem já teve a oportunidade de ler a obra, uma das mais famosas de sua autora. Ao final, pede-se facilmente por mais.

O Filme

Dirigido por Stephen Daldry em 2002, As Horas é um filme com três atrizes incríveis vivendo três personagens incríveis. Virginia Woolf é interpretada por Nicole Kidman, com um trabalho bastante minucioso de caracterização. Laura Brown é vivida por Julianne Moore, em uma atuação bacana. Já Clarissa Vaugh é de Meryl Streep (inclusive ela faz uma participação especial no livro), que dispensa comentários. No filme ainda temos as participações de Ed Harris como Richard, Stephen Dillane como Leonard Woolf (marido de Virginia), Clare Danes como Julia (filha de Clarissa), Toni Collette como Kitty (a vizinha de Laura) e Jeff Daniels como Louis Waters (um romance de Clarissa).

The-Hours-Meryl-Streep

Clarissa e Richard.

O filme foi indicado em 9 categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Venceu na categoria de Melhor Atriz com Nicole Kidman. Também foi indicado a diversos prêmios e participou de diversos festivais, como o de Berlim. Há diversas críticas ao trabalho desempenhado pelas atrizes em suas interpretações, sobretudo Nicole Kidman, por entre outros fatores ter vencido o Oscar por uma atuação considerada fraca e caricata demais. Mas, para mim, todas estão muito boas, principalmente Julianne Moore.

A direção de Stephen Daldry (que até então só havia feito Billy Elliot) é interessante em diferentes aspectos. É essencial notar seu interesse em contemplar seus personagens em alguns momentos. Há também uma delicadeza precisa no trabalho da fotografia. A edição talvez seja um dos pontos principais da narrativa tendo em vista que ela faz com que a história torne-se instigante ao espectador. Há cortes entre as histórias de cada uma das épocas e elas dialogam entre si conforme os minutos vão passando. Uma curiosidade: Daldry iniciou as filmagens com a personagem de Meryl Streep, em seguida filmou Moore para no final filmar com Kidman.

horas_2002_15

Como já apresentei anteriormente a premissa do livro, não me repetirei ao falar sobre a premissa do filme. Mas o roteiro do longa é bem adaptado por David Hare. Há poucas coisas que não aparecem no filme e que estão no livro. De certa forma, algumas cenas muito gráficas pra mim ficaram melhores retratadas no filme, até porque eram bem gráficas. Infelizmente há de se dizer que os diálogos forçam um pouco a verossimilhança. Soam ora fracos em construção, ora elaborados demais.

No final, temos um filme com muitas dúvidas e indagações na mente dos espectadores. Assemelha-se um pouco ao que o leitor tem ao terminar o romance. Muita gente preferiu o filme ao livro por conta dessas questões (e por tantas outras). Acredito que seja um filme e, também um livro, para serem degustados por muito tempo. Ser re-assistido por mais algumas vezes; ser re-lido por tantas outras.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.