26
jul
2015
Crítica: “Mapas para as Estrelas”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Maps to the Stars
Mapas para as Estrelas
David Cronenberg, 2014
Roteiro: Bruce Wagner
Paris Filmes

4

Assistir a um filme de David Cronenberg é se surpreender a cada instante com o grotesco. O diretor consegue provocar nojo em seu público com facilidade e brincar com situações que, aparentemente, seriam sérias mas que de certa forma caem no estranho e incomum. Dito isso para quem pode vir a ser leigo neste quesito, vocês estão preparados para entender um pouco do filme através da crítica. Em Mapas para as Estrelas, seu último longa lançado, Cronenberg brinca com os padrões hollywoodianos através de alguns núcleos de personagens que, de certa forma, se conectam.

Provocando o público a todo instante, Cronenberg nos apresenta diversas pessoas que querem uma chance em Hollywood. Como o título do filme sugere, o mapa para onde se concentram as estrelas é o lugar onde todos estes personagens almejam chegar. E sabe aquele tipo de filme onde a sordidez vigora e nenhum personagem tem um caráter limpo ou minimamente bom? Este é o perfil da galera retratada no filme. Adicione um pouquinho de pessimismo e você vai ter um aparato fiel do que esperar desta história.

Julianne Moore vive Havana Segrand uma atriz em decadência e desesperada por visibilidade, que quer voltar ao status de estrela interpretando o papel principal de um remake, cuja sua mãe fora a protagonista. Mia Wasikowska é Agatha Weiss, uma jovem misteriosa, com certas queimaduras nas mãos que atualmente desenvolve um roteiro para o cinema. Robert Pattinson interpreta Jerome Fontana, o motorista de Havana, que deseja ser ator. Ainda há Benjie Weiss (Evan Bird), irmão de Agatha, que protagoniza alguma coisa importante em Hollywood e seu pai Stafford Weiss (John Cusack), que cortou suas relações com Agatha.

O conflito apresentado pelo roteiro é a busca incessante pela fama; a ambição pela ascensão em hollywood é grandiosa e mostrada com êxito pela direção, apresentando sátiras convincentes e, um tanto quanto, vulgares, tendo em vista, como dito anteriormente, o tom sórdido centrado em alguns personagens. O longa possui várias atuações incríveis, com destaque para Julianne Moore e Mia Wasikowska que formam uma dupla repleta de falsidade e incômodo. Pela primeira vez, vemos as atrizes em situações que jamais as imaginaríamos, como é o caso da personagem espalhafatosa de Moore em seus momentos de necessidades fisiológicas. Aliás, é a personagem mais rica em termos de construção do filme. Havana vive de aparências, é completamente mesquinha, um tanto quanto esperta, atrapalhada e até bastante repulsiva.

O grotesco como marca de Cronenberg desperta em duas cenas repletas de tensão em seu desfecho, onde o espectador é levemente surpreendido com tamanha estranheza. É cômico, analisando friamente, a forma como tudo se dá. Chama a atenção ver o que certos personagens pretendem, fazem e como conseguem determinadas coisas pela fama. O roteiro tem uma ótima abordagem, que pode até se perder em determinadas cenas que soam enfadonhas, mas mesmo assim a construção de cada personagem dentro de sua própria trama e depois como um todo é impressionante.

Temas recorrentes como sexo por status, incêndio duvidoso, incesto e mortes chocantes são pontos a serem observados. Estas cenas possuem um certo exagero por parte de seu diretor, mas nada que assuste ou afaste o espectador do filme. A fotografia e a direção de arte caminham de mãos dadas com os tons neutros e escuros, quase sombrios, de seus personagens frios e de caráter duvidoso. As cores quentes chegam para marcar certas passagens, mas o filme como um todo é bastante distante e gélido. Mostra com precisão o universo artificial e sem glamour hollywoodiano que queria ser trazido à tona.

Por fim, é um filme rico em construção narrativa com ótimas atuações e um visual bacana. É o longa que certamente Cronenberg gostaria de fazer (e o fez). Combina muito com seu estilo de se fazer cinema, montando e tratando de aspectos interessantes descartados em outros filmes sobre o tema. Vale a pena por tudo isso (e muitas coisas a serem descobertas enquanto se assiste).



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.