07
set
2015
Crítica: “Love”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Love
Love
Gaspar Noé, 2015
Roteiro: Gaspar Noé
Imovision

3

Você deve ter ouvido falar de Gaspar Noé, mesmo que indiretamente, ao menos uma vez em sua vida. Ele é aquele diretor argentino, radicado na França, que sempre promete chocar toda e qualquer plateia em um festival típico de cinema na cidade de Cannes. Dessa vez, o filme disposto a chocar a plateia do festival chamava a atenção por ser em 3D. Love é um filme que usa e abusa das cenas de sexo pra contar a história de um casal – até que bastante normal.

Murphy (Karl Glusman) é um americano estudante de cinema em Paris. Ele é o companheiro de Electra (Aomi Muyock) e os dois vivem uma intensa relação de amor e sexo. Mas isso só é mostrado ao espectador conforme o filme vai avançando, pois em um futuro não tão distante Murphy tenta reconstruir essa história intensa vivida anteriormente através de lembranças duras e até insanas quando recebe uma ligação da mãe de Electra, dizendo que esta está sumida há dois meses. Nesse estágio da vida do protagonista, ele está vivendo com Omi (Klara Kristin) e os dois têm uma criança. Omi era sua vizinha e durante a reconstrução das lembranças vê-se que ela acabou entrando em sua vida por conta de uma fantasia compartilhada por Electra e ele: um menáge à trois.

O filme promete muito e não desenvolve. Apesar de existirem cenas bastante interessantes (e até perturbadoras), tudo parece muito repetitivo. Chegamos ao terceiro ato da narrativa com os olhos cansados de tanto sexo, tanta coisa comum e igual. Aliás, as cenas de sexo tanto mencionadas nesta crítica são bem gráficas e bem simples que o espectador conhecedor da filmografia de Noé pode até se perguntar “tá, mas e quando vai ter alguma coisa realmente chocante nisso tudo?”. Eu, particularmente, esperei que houvesse um desenvolvimento muito maior de diversos tabus sexuais, até mesmo o do poliamor que aparece em alguns minutos e depois some. Ainda falando da minha experiência, fiquei curioso para saber como este filme foi filmado e montado.

A montagem é uma coisa bacana de se observar. As cenas são construídas e desconstruídas ao mesmo tempo com pequenos cortes ao preto em planos diretos, mas isso pode dificultar o entendimento do filme por conta da falta de linearidade ainda mais quebradiça. A fotografia é bastante escura, o que agrega ao estilo de estética do diretor. O vermelho também é uma cor dominante na narrativa e é interessante notar que durante as lembranças do protagonista estas cores mais quentes são recorrentes, enquanto no presente onde tudo está sendo lembrado as cores são frias e os planos são limpos.

Ainda sobre isso, o 3D é completamente problemático e desnecessário ao longa, a profundidade é quase inexpressiva e só serviu pra alimentar o ego de seu realizador, que aliás se faz presente em vários momentos do filme, principalmente quando um dos principais conflitos do roteiro (o da maternidade) está em jogo. “Que nome você daria ao seu filho?” “Gaspar.” O 3D é eloquente e até engraçado em certas cenas (SPOILER: meio previsível, mas sim, há um close em um pênis prestes e ejacular e o que acontece? Acho que eu nem preciso mencionar!), mas são poucas, o que não justifica um filme que mais de duas horas ser todo apresentado desta forma.

A trilha sonora se faz um dos pontos fortes do longa, é uma das subliminaridades de Noé, pois as músicas compostas por Lawrence Schulz acabam envolvendo o espectador à narrativa de forma sutil; as músicas combinam com todas as cenas eróticas! E as referências deixadas por Gaspar junto da direção de arte vão de posteres de filmes como Salo, os 120 dias de Sodoma à fotos espalhadas por diversos locais. O elenco é interessante, sobretudo, Aomi Muyock que faz uma Electra bastante misteriosa, mas eles não possuem tanta química em cena o que dificulta acreditar-se que os dois eram tão apaixonados a ponto, de certa forma, enlouquecerem de amor. O espectador sente uma vontade latente em saber o que vai acontecer com a personagem, mesmo com as cenas que enchem linguiça por seu caminho. Há uma cena com uma travesti que poderia ser melhorada em diversos aspectos e o que poderia ter feito da história uma coisa muito melhor; é cômica, por ora, mas se certas coisas tivessem acontecido o longa ganharia (e muito) em diversos aspectos, sobretudo na construção de Murphy, um personagem dúbio e não muito palpável. Outra cena que se espera muito é a do sex shop, mas tudo volta a ser um mais do mesmo no fim das contas.

Mesmo com várias cenas gratuitas, soarem forçadas e nada complementarem à história, Love, que não é de longe o melhor filme do seu realizador, mostra-se irregular com algumas qualidades sobre um amor que necessita de sexo a todo momento.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.