09
set
2015
Crítica: “Permanência”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Permanência
Leonardo Lacca, 2014
Roteiro: Pedro Costa
Vitrine Filmes

3.5

Irandhir Santos, destaque do longa, é um dos atores mais incríveis revelados no Brasil durante os últimos anos. E, Permanência, seu mais novo filme conta a saga de um artista pernambucano na cidade de São Paulo redescobrindo certas lembranças com um antigo amor do passado. A permanência do título se dá quando Ivo (Irandhir Santos) se hospeda na casa de uma amiga, Rita (Rita Carelli) que está atualmente casada com Mauro (Sílvio Restiffe) enquanto negocia com uma galeria de arte uma exposição de suas fotos. Por lá ele acaba conhecendo Laís (Laila Pas) com quem acaba se envolvendo. À medida que o filme avança vamos descobrindo por que há tanta distância e ao mesmo tempo aproximação inconsciente de dois personagens que há tempos não se viam.

Logo na primeira cena, Rita e Ivo se sentem desconfortáveis com a presença um do outro e fazem de tudo para que o clima entre eles seja amigável e confortável. Não é o que acontece; os dois tentam, tentam, tentam mas acabam provando de suas próprias friezas iminentes. Os diálogos chegam até soarem bobos, mas na verdade tudo isso é retratado de uma maneira muito fiel à realidade do desconforto. Essa frieza inicial não é quebrada durante os cem minutos de projeção. A intenção é que este clima permaneça ao longo de todo o filme para falar sobre uma paixão que ressurge timidamente.

A frieza é notada em diversos setores do longa, mesmo em cenas quentes. A fotografia utiliza-se de aparente luz natural em diversos momentos; os personagens estão em ambientes claros e quase sempre com cores neutras. Há um abuso de branco e cinza em diversos momentos; uma constante construída ao longo de algumas sequências. A precisão da direção é um outro ponto forte do longa; percebe-se a objetividade da narrativa de Lacca na maioria das cenas, a intenção do diretor era ser simples e dramático ao mesmo tempo. Um romance com muitas nuances minimalistas e jogos de câmeras que enfoquem ainda mais no distanciamento. Inclusive há certos planos sequência e simétricos que podem até passar despercebidos, mas que ajudam ainda mais a história ser desenvolvida da maneira pretendida.

O filme é delicado em diversos aspectos e sensível na maioria das vezes. Os personagens parecem aguardar por algo grande que virá, mas o roteiro não proporciona nada disso. É sobre pessoas que vão vivendo suas vidas calmamente e com anseios, medos e culpa, mas que sabem (no fundo) que não podem (e nem devem) criar expectativas altas sobre o futuro. Desta forma, o drama idealizado é ainda mais frequente e torna-se um ponto fortíssimo para o enredo. Há sequências muito bonitas de Irandhir Santos e Laila Pas em seus nus e em suas entregas aos personagens que estão interpretando. O elenco é forte e isso é um fato. Rita Carelli é problemática da maneira certa e necessária; Irandhir Santos com seu Ivo mostra-se perturbante e consequentemente transmite sua condição à personagem Rita, que torna-se ainda mais inquieta. Vale mencionar que Laís, de Laila Pas, uma personagem que chega aos poucos na trama é um dos destaques. Genésio de Barros faz uma participação como o pai de Ivo, mas logo desaparece.

Lacca atingiu seu objetivo. O longa tem um clima pesado, denso, mas ao mesmo tempo calmo e simples. É uma mistura interessante em cena, o que faz com que os distanciamento e as friezas se tornem ainda mais bonitas de serem admiradas. O silêncio toma conta e tudo o que precisa ser dito neste momento é realmente e verdadeiramente dito. É um filme diferente e necessário. Será que certas coisas em nossas vidas devem ser encaradas com tanta naturalidade disfarçada?

Não vá assistir a este filme esperando grandes reviravoltas, um mistério a ser desvendado pelas fotografias ou um segredo que os deixa daquela forma. Apenas aprecie e ele lhe entregará boas coisas a se pensar.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.