29
set
2015
Crítica: “Que Horas Ela Volta?”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
Que Horas Ela Volta
Que Horas Ela Volta?
Anna Muylaert, 2015
Roteiro: Anna Muylaert
Pandora Filmes

4.5

Lembro de ter ouvido falar deste filme pela primeira vez no fim do ano passado, quando de bobeira assistia ao programa do Jô e a convidada era Regina Casé. Durante a entrevista Jô ressaltava que pessoas normais descansavam durante as férias, mas Regina trabalhava, porque seu trabalho como era atriz seria um hobbie. Papo vai, papo vem, Regina ressaltou que o filme era irrecusável, pois a diretora Anna Muylaert disse que o papel era especialmente para ela. Imagens do filme e a premissa foram mostradas naquela ocasião e eu, que havia ficado bem interessado na história, acabei nem me preocupando em anotar porque sabia que o filme teria uma boa divulgação no ano seguinte. Dito e feito: Que Horas Ela Volta? se tornou bastante conhecido por ter vencido o Festival de Sundance na categoria de Melhor Atriz. O cinema brasileiro agradece por Regina Casé tirar suas férias trabalhando neste filme.

Anna Muylaert é uma velha conhecida do cinema brasileiro. Já dirigiu alguns filmes bacanas como Durval Discos (2002) e É Proibido Fumar (2009), além de trabalhar no roteiro de tantos outros (e de programas televisivos como Castelo Rá-Tim-Bum) e, apesar de ter sido acertiva na maioria das vezes, com este novo filme é que ela parece ter descoberto com afinco seu tom dramático e de direção. Val (de Regina Casé) é uma empregada emigrante do Nordeste que trabalha e reside no quarto dos fundos na casa de seus patrões ricos em São Paulo. Ela é bastante querida por eles, principalmente por Fabinho (Michel Joelsas) filho do casal Bárbara (Karine Teles) e ““““Doutor”””” Carlos (Lourenço Mutarelli). A família é composta por artistas: a mãe trabalha com moda e o pai é pintor. Mesmo tendo uma boa vida nesta casa, sendo respeitada pelos patrões e considerada membro da família, Val sabe que não é uma eles (e eles também sabem que ela não é uma deles). Com esses limites estabelecidos é difícil assistir ao filme e não se indignar com certas atitudes por parte dos patrões, sobretudo a patroa.

O conflito do filme se dá com a chegada de Jéssica (de Camila Márdila), filha de Val, que vem a São Paulo para prestar vestibular em uma das mais renomadas faculdades de Arquitetura da cidade. A menina que viveu distante da mãe por grande parte de sua vida é uma grande pedra no sapato da patroa Bárbara, uma grande figura para o patrão Carlos e uma gata estranha para Fabinho. Tudo muda nessa família depois da chegada desta personagem, até para Val que se sente incomodada com certas atitudes da filha perante os patões, como na cena em que ela pede para ficar no quarto de hóspedes e quando toma o tão disputado sorvete de Fabinho. Jéssica é uma personagem com uma construção inquieta, muito palpável e bastante intensa.

Camila Márdila (para se ficar de olho) desempenha uma atuação incrível ao retratar uma filha distante da mãe, que guarda dentro de si alguns ressentimentos, como no caso em insistir ao chamar Val de Val e não de mãe, como a mesma até solicita em determinado momento. A atriz tem ótimos olhares em cena, além de fortalecer o discurso incrível de sua personagem com seu pulso firme. Aliás, o filme é repleto de ótimas atuações, além da própria Regina Casé que dispensa comentários por sua atuação emocionante, Karine Telles que interpreta Bárbara acertou o tom necessário para sua patroa que finge no começo estar tudo bem, mas que depois mostra seu incômodo; Michel Joelsas, já conhecido do público em um outro filme não tão distante (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias), também é um ator pra se ficar de olho. A relação construída entre ele e Val é bonita de ser vista em cena.

No longa há mais cenas em que é impossível não se sentir motivado ou emocionado junto de Val, como a cena da piscina ou a do resultado do vestibular. Val tem uma personalidade simples, que contrasta fortemente com a personalidade da filha que não aceita viver na casa dos patrões dela, que motiva a mãe a procurar um lugar melhor para se viver e que não aceita ser tratada como inferior por gente que ela nunca tinha visto antes na vida. As convenções que Val afirma existirem e, que Jéssica contesta a todo momento, é um dos pontos interessantes a serem refletidos.

O filme possui uma fotografia interessante, planos abertos, jogos de luzes, corredores. Tem o seu humor leve nas entrelinhas; tem seus simbolismos, como o jogo de xícaras xadrez de Val, o sorvete de Fabinho; tem ótimas atuações, tem personagens muito condizentes à realidade. O longa de Muylaert é muito gostoso de se assistir, é muito real, palpável e verossímil. A maioria das situações são passíveis de identificação e Val é encantadora. O desfecho do filme aperta o peito ao mesmo tempo que traz paz. Agora os personagens podem continuar suas vidas, depois dos créditos subirem, com as almas lavadas.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.