11
set
2015
Maratona Zé do Caixão: “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”
Categorias: Críticas, Maratona Zé do Caixão • Postado por: Marcelo Silva
Para saber do que se trata a Maratona Zé do Caixão, clique aqui.

À Meia-Noite Levarei Sua Alma

José Mojica Marins, 1964
Roteiro: José Mojica Marins
Mundial Filmes, Trash Vídeo, Roma Vídeo

5

A expressão facial sombria, o olhar compenetrado, a barba espessa, o chápeu devidamente posicionado. Simultaneamente, um monólogo invade os ouvidos:

”  O que é a vida? É o princípio da morte.                                                                    O que é a morte? É o fim da vida.                                                                                O que é a existência? É a continuidade do sangue                                                  O que é o sangue? É a razão da existência!”

É assim que tem início À Meia-Noite Levarei Sua Alma, o terceiro longa da carreira de José Mojica Marins, um verdadeiro clássico do cinema nacional – a obra que inaugurou a nossa produção do gênero terror.

Mais de 50 anos depois do lançamento, a obra-prima de Mojica mantém todas as suas qualidades, e, em uma era marcada por uma indústria pouco criativa, constitui-se como uma verdadeira aula de cinema. 

Na trama, somos apresentados ao agente funerário Josefel Zanatas (José Mojica Marins), popularmente conhecido pelo apelido de Zé do Caixão na pequena cidade em que mora. Obcecado com a ideia de gerar um filho perfeito e dar continuidade ao seu sangue, Zé se vê decepcionado com a incapacidade de sua esposa (Valéria Vasquez) engravidar. Disposto a fazer o possível para alcançar seu objetivo, ele decide violentar a mulher do seu melhor amigo, dando início a uma onda de mortes e terror pela cidade.

Primeiramente, uma coisa deve ficar clara: simplicidade é diferente de incompetência. Os filmes de Mojica são simples, feitos com poucos recursos e à base do improviso; mas estão longe de serem frutos de falta de talento. O motivo disso está na inventividade sem limites do cineasta paulista. À Meia Noite Levarei Sua Alma é, desde os seus personagens até os cenários, um  verdadeiro exercício de criatividade, uma obra cinematográfica diferente de tudo que já fora feito no Brasil até então.

Mojica não poderia ter sido mais feliz na hora de criar o protagonista para sua história. Faltam adjetivos para descrever Zé do Caixão. Questionador, cético, dono de um humor negro singular, individualista, galanteador, charmoso e, até mesmo, um pouco ingênuo em sua vida amorosa. Esses são apenas algumas das nuances do coveiro. Desprezando qualquer referência estrangeira (nada de um protagonista zumbi, lobisomem ou vampiro), Mojica incorpora expressão facial, postura e andar próprios, levando o espectador a crer que não há nenhuma barreira separando o ator do personagem. O fato de ter sido integralmente dublado por Laurindo Luarelli (como não apreciava sua própria voz, ele escolheu a dedo o dublador que julgou ideal) não tira, em aspecto nenhum, os méritos da sua atuação.

Na direção, o cineasta demonstra uma preferência por cortes bruscos e planos médios. Mesmo sem nenhum conhecimento acadêmico ou teórico de cinema, Mojica acaba incorporando características próprias do Expressionismo Alemão – a trama sobrenatural, os cenários simples e os personagens excêntricos são alguns fatores que podemos notar em À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Há, inclusive, uma cena na qual, antes de cometer uma atrocidade, Zé do Caixão sobe uma escadaria e vemos sua sombra projetada na parede – como não lembrar da clássica e semelhante imagem de Nosferatu?

Como roteirista, Mojica também não deixa a desejar. Os discursos inflamados proferidos pelo protagonista são de arrepiar qualquer um. Nada escapa da boca do coveiro. A fé alheia, a superstição e a fraqueza do homem viram alvo de deboche. Se vivesse na Idade Média, Zé certamente seria queimado na fogueira. Além das falas atraentes e originais, a história também consegue integrar os componentes clássicos do gênero terror, incluindo aí a presença de uma bruxa maluca (vivida pela excelente Eucaris Moraes), de um bosque amedrontador, de um gato preto e relâmpagos incessantes nos momentos de elevada tensão.

Pela parte técnica, a fotografia de Giorgio Attili contribui não só para o visual do filme, mas também para os movimentos e truques de câmera, com destaque para os vários closes dados nos olhos negros e saltitantes de Zé do Caixão. Já a direção de arte valoriza os ambientes fechados e capricha na constituição dos cenários, sendo uma surpresa descobrir que a mata do filme foi, na verdade, criada em estúdio a partir do corte de várias árvores e arbustos (sim, eu fiquei boquiaberto ao ler isso no livro Maldito – A vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, de André Barcinski e Ivan Finotti).

Enfim, se eu tivesse que resumir À Meia-Noite Levarei Sua Alma em uma só frase, eu diria: o trabalho de um gênio de uma criatividade sem limites. Quem precisa de Drácula ou Frankenstein quando temos Zé do Caixão, uma figura genuinamente nossa? Para a minha felicidade, a saga do coveiro continua em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Até o próximo post, recomendo a todos que assistam a À Meia-Noite Levarei Sua Alma (o filme está disponível aqui). A grandeza do trabalho de José Mojica merece a sua audiência.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!