17
set
2015
Maratona Zé do Caixão: “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”
Categorias: Críticas, Maratona Zé do Caixão • Postado por: Marcelo Silva
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Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver

José Mojica Marins, 1967
Roteiro: José Mojica Marins
Omni Vídeo

5

As pessoas fizeram fila para ver À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Diante disso, José Mojica Marins não podia ficar estático, e, com todo o prazer do mundo, tratou de providenciar uma sequência. Assim nasceu Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver.

“É a vida o tudo, e a morte o nada?                                                                            Ou é a vida o nada, e a morte o tudo?!”

Na continuação, Zé do Caixão (José Mojica Marins) continua a sua busca pelo filho perfeito. Com a ajuda do fiel criado Bruno (Jose Lobo), ele rapta seis moças do lugarejo e as submete a sessões de medo com aranhas e cobras. O objetivo é testá-las e descobrir quem seria uma boa progenitora. Antes de morrer, uma das reféns joga uma maldição sobre Zé,  jurando que voltará para possuir o seu corpo. Depois disso, o coveiro conquista o coração de Laura (Tina Wohlers), a filha de um importante coronel da região, e vê nela a grande oportunidade de ter seu filho. Contudo, sobreviver não será uma tarefa fácil, já que, além do ódio da comunidade local, ele também tem que enfrentar uma estranha força do além.

Com a inserção de apenas uma dublagem na cena final de À Meia Noite Levarei Sua Alma, Mojica dá o pontapé para mostrar, de uma maneira prática, econômica e eficiente, os eventos que sucederam a noite em que Zé do Caixão foi encontrado pelos moradores do lugarejo. O diretor, aliás, mostra-se muito mais ousado e seguro nesse segundo capítulo, conferindo maiores dimensões à imagem do coveiro. Além de continuar com os monólogos e as provocações de cunho blasfêmico, Zé agora adere a experiências nada convencionais. Em determinado momento, libera um verdadeiro mar de caranguejeiras no quarto das mulheres que sequestrou apenas para descobrir qual delas seria a mais destemida. Não muito depois, submete as pobres vítimas ao ataque de cobras (curiosamente, Mojica não usou truques para essas cenas e de fato expôs o elenco feminino ao contato direto com esses animais, o que, obviamente, deu-lhe um tremendo trabalho).

O roteiro é inteligente ao trazer novos e interessantes personagens. Na pele de Laura, a atriz Tina Wohlers exala erotismo, e, embora pareça uma moça inexpressiva e superficial à primeira vista,  constitui-se como um tipo enigmático – fica a pergunta no ar: ela estaria obedecendo a Zé por alguma ingênua submissão ou por realmente compartilhar das suas ideias sobre um filho perfeito que deve ser gerado e protegido a qualquer custo? Além do capricho na introdução dos personagens, Mojica novamente faz uso da sua infinita criatividade para enriquecer a obra. A sequência em que Zé do Caixão é tirado de sua cama e levado direto para as chamas do inferno (único trecho em que o filme deixa de ser em preto e branco e assume cores, a propósito) é memorável. Como se não fosse o bastante, ele ainda encontra o imperador Nero (interpretado também por Mojica) mostrando sua autoridade perante as bizarras criaturas do inferno. Mais uma prova de que o cineasta não cansa de surpreender – quem mais pensaria em uma sacada dessa?

Se, no primeiro filme, era difícil de acreditar que o bosque era, na verdade, o interior improvisado de um estúdio, dessa vez, o fato de um pântano inteiro ter sido criado a partir de um buraco preenchido por água nos fundos de uma velha sinagoga é digno dos mais calorosos aplausos. O diretor de fotografia Giorgio Attili e a equipe de direção de arte mais uma vez trabalham com cenários predominantemente internos e não decepcionam, visto que o realismo dos ambientes criados é inquestionável.

Ao subir dos créditos finais, até o mais exigente do espectador deve reconhecer que Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver não fica devendo em nada para qualquer produção hollywoodiana de terror. O filme, que enfrentou problemas com os censores do governo e teve de ter seu desfecho alterado, mostrou que Mojica não era um talento passageiro. À aquela altura, Zé do Caixão já caminhava para se tornar um ícone nacional. Suas unhas compridas logo passariam a invadir outras mídias. Quem teria coragem de encará-lo?

* Para assistir a Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, clique aqui.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!