25
set
2015
Maratona Zé do Caixão: “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”
Categorias: Críticas, Maratona Zé do Caixão • Postado por: Marcelo Silva
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O Estranho Mundo de Zé do Caixão

José Mojica Marins, 1968
Roteiro: José Mojica Marins & Rubens F. Lucchetti
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4

Lançar O Estranho Mundo de Zé do Caixão nos cinemas foi uma tarefa árdua para José Mojica e toda a equipe. Contendo cenas grotescas e provocativas, o filme esbarrou na censura federal. Só depois de muitas manobras –  e de uma mudança nada conveniente no final da história – a obra foi, finalmente, exibida ao público.

Zé do Caixão (José Mojica Marins) desfia sua filosofia doentia e introduz três contos de horror. Em O Fabricante de Bonecas, marginais invadem a casa de um velhinho e descobrem o macabro segredo da confecção de suas bonecas. Em Tara, um pobre vendedor de balões fica obcecado por uma garota que ele segue nas ruas. Em Ideologia, o excêntrico professor Oaxiac Odéz (leia o nome ao contrário) enfrenta um rival e tenta provar que o instinto prevalece sobre a razão, levando o espectador a presenciar um verdadeiro show sadomasoquista.

Como a trama é tripartida e não há uma conexão direta entre os contos, vou avaliar o filme de acordo com cada segmento.

O Fabricante de Bonecas é a primeira história que surge em tela – e é também a mais fraca dentre as três. Em aproximadamente meia-hora de projeção, Mojica oscila entre erros e acertos. Os primeiros concentram-se no fato de a sonorização estar inadequada. Não existe equilíbrio entre diálogos de cena, trilha de fundo e ruídos do ambiente, visto que os três parecem concorrer entre si para ver quem se sobressai. Em determinado momento, por exemplo, fica difícil compreender as falas de um dos membros da gangue de tão elevado que está o volume da música que toca no local (no caso, uma lanchonete). Há ainda o rosnado incômodo do que aparenta ser um cão feroz que se encontra do lado de fora da casa do artesão. Sem dúvida, um artifício que, além de nada acrescentar ao filme, revela-se como uma escolha infeliz do diretor.

Por outro lado, a boa premissa e a aura de mistério que permeiam a narrativa são capazes de redimir os equívocos citados. Em uma época na qual o boneco Chuck ainda não havia sido criado, trazer uma história com bonecas horripilantes foi uma sacada genial de Mojica e do roteirista Rubens Luchetti. Os momentos em que esses brinquedos são enquadrados sem os olhos é de arrepiar qualquer um, ao passo que a direção de arte estabelece um clima claustrofóbico ao investir em um ambiente familiar pálido e desprovido de decoração. No final das contas, um segmento mediano que, apesar de estar muito aquém do potencial do diretor, serve como boa distração.

Em Tara, já temos uma mudança radical. Se O Fabricante de Bonecas peca em aspectos técnicos, aqui eles atuam em perfeita sintonia para a construção de uma narrativa sem nenhum diálogo. Os enquadramentos, os focos no angustiado rosto do protagonista e a música estão perfeitos. Juntos, eles contribuem para o verdadeiro espetáculo cinematográfico que é esse segundo conto. Cheio de referências a histórias clássicas – o protagonista é uma espécie de Quasímodo às avessas, e, sempre que um determinado sapato feminino é enquadrado, ouve-se o tilintar dos sinos, numa clara referência à chegada da meia-noite em Cinderela -, Tara expressa seu enredo e sua alma sem sentir falta de diálogos. Estes seriam um luxo desnecessário aqui, até mesmo porque, muitas vezes, a grandiosidade do cinema pode não caber em palavras.

Por último, temos a melhor e mais grotesca história. O professor Oaxiac Odéz é um doido varrido. Sem dó nem piedade, ele aprisiona seu oponente e o submete, junto com a esposa, a experiências nada agradáveis. O objetivo: mostrar que o instinto prevalece sobre a razão e que, em poucos dias, o homem pode sucumbir ao seu lado mais animalesco.

Ideologia permite a Mojica libertar todo o seu gênio criativo, compondo, com enorme inspiração e realismo, um personagem que se revela tão diabólico quanto o próprio Zé do Caixão. As risadas sinistras, as unhas compridas, o semblante malicioso, tudo isso é incorporado em conjunto pelo ator, que, literalmente, rouba a cena e faz qualquer um esquecer dos outros intérpretes de O Estranho Mundo de Zé do Caixão.

É interessante observar que o professor chega a se comparar com Deus nos monólogos, utilizando, inclusive, exatos sete dias (quantidade de dias que a criação divina demorou na história bíblica) para provar a sua teoria.

Sem pudor nenhum, o diretor Mojica coloca em tela o não mostrável, desafia o estômago do público e prova que é um homem à frente do seu tempo, um vanguardista legítimo.

O belo trabalho de fotografia e direção de arte também merece destaque. Se os enquadramentos e a iluminação não deixam a desejar, os cenários concebidos não ficam muito atrás – a mansão sombria de Oaxiac é um verdadeiro capricho.

Uma produção tão bem feita não poderia ter um final melhor. A sequência em que o professor saboreia seu banquete nada usual ao som de Hallelujah é capaz de provocar o mais violento orgasmo artístico em todo bom cinéfilo. Um verdadeiro espetáculo!

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Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!