07
set
2015
O fantástico cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão!
Categorias: Especiais, Maratona Zé do Caixão • Postado por: Marcelo Silva

Zé do Caixão

“O maior homem de cinema já surgido no hemisfério sul” (Carlos Reichenbach, cineasta)

“José Mojica Marins é um gênio do cine-terror” (Stanislaw Ponte Preta, escritor)

“Puta que pariu! Esse cara é um gênio!” (Glauber Rocha, cineasta)

“Do nada faz o tudo, ao contrário daqueles que em cinema têm tudo e não fazem nada!” (Rogério Sganzerla, cineasta)

A história do diretor, ator e roteirista José Mojica Marins começa, por ironia do destino, numa sexta-feira treze, mais precisamente no dia 13 de março de 1936. Na Vila Mariana, São Paulo, nascia o filho de Antônio André e Carmen Marins.

O primeiro contato com a sétima arte veio cedo. Quando tinha dois anos, a família de Mojica mudou-se para os fundos de um cinema, que passou a ser gerenciado por Antônio. A partir daí, o garoto e a palavra cinema tornaram-se elementos indissociáveis – e os finais de semana eram regados a filmes e mais filmes.

Aos doze anos, Mojica ganhou uma câmera do seu pai como presente de aniversário. Depois disso, sua rotina passou a girar em torno das experiências fílmicas – pouco a pouco, o jovem ia descobrindo as técnicas e os truques que pautariam a sua carreira. Em 1949, fez, com seus amigos, o curta-metragem O Juízo Final, sobre uma invasão alienígena à Terra.

Como foi ficando exigente com o tempo, Mojica viu a necessidade de um estúdio para realizar suas produções. A solução foi fazer tudo em um galinheiro. E não é que deu certo? Improvisando de tudo quanto é jeito e explorando os mais variados ângulos e artifícios, ele e sua turma trabalharam duro e produziram novos curta-metragens.

Em 1953, o entusiasmado Mojica reuniu a sua turma e sugeriu a criação de uma empresa cooperativa onde todos colaborariam com pequenas quantias para bancar a produção de filmes. Assim, nasceu a Companhia Cinematográfica Atlas, que, algum tempo depois, viria a se chamar Indústria Cinematográfica Apolo Ltda.

Aos dezessete anos, Mojica já era chefe de um “estúdio cinematográfico”, e também tinha uma certa fama na comunidade em que vivia por manter uma escolinha de atores, onde dava aulas de atuação.

1958 – 1963: Primeiras experiências

Durante as filmagens de Meu Destino em Tuas Mãos (1963)

Após duas experiências fracassadas de dirigir um longa-metragem, José Mojica lançou, no dia 19 de dezembro de 1958, o filme A Sina do Aventureiro, um bangue-bangue sobre um pistoleiro que planeja vingar a morte da esposa. A obra recebeu críticas mistas da imprensa. Enquanto alguns criticaram os problemas técnicos, houve também aqueles que reconheceram o trabalho talentoso e criativo do diretor.

Com o intuito de fazer sucesso e agradar a uma parcela do público que se sentiu incomodada com algumas cenas, digamos, impróprias de A Sina do Aventureiro, Mojica lançou, em 1963, Meu Destino Em Tuas Mãos. O filme, um dramalhão sobre cinco crianças forçadas a abandonar suas casas por conta dos maus-tratos dos pais, foi um verdadeiro fracasso.

Era Zé do Caixão:

Após o fiasco de Meu Destino em Tuas Mãos, Mojica passou a se dedicar a Geração Maldita, um filme policial recheado de ação e violência. Mas um pesadelo mudou tudo isso. Certa noite, ele sonhou que era surpreendido em sua cama por uma figura misteriosa e arrastado até um túmulo com seu nome. Quando fisgou os olhos no estranho sujeito, viu a si mesmo. Pronto, estava lançada a semente do Zé do Caixão.

Nesse momento, Mojica abandonou Geração Maldita e convenceu-se de que precisava fazer um filme de terror, algo até então inédito no Brasil. Sim, ele queria ser o primeiro a fazer isso! Foi fácil? Claro que não. O cineasta teve de emprestar dinheiro dos pais e vender sua própria mobília para viabilizar o projeto (durante grande parte da sua carreira, ele nunca recebeu investimento estatal).

Em questão de dias, ele foi montando a sua equipe técnica. Giorgio Attili e Luiz Elias foram escolhidos, respectivamente, como fotógrafo e montador (ambos viriam a se tornar fiéis colaboradores de Mojica nos próximos anos). Assim, nascia, no ano de 1964, À Meia-Noite Levarei Sua Alma, e, consequentemente, o icônico Zé do Caixão.

Arrisco-me a dizer que Josefel Zanatas (lendo o sobrenome ao contrário: “Satanaz”), o nome real do Zé do Caixão, é o maior personagem já criado na história da cinematografia brasileira. Poucas vezes vi um único personagem englobar tantas características distintas. Com unhas compridas, barba espessa e vestes totalmente negras, ele parece a mistura da reencarnação de Friedrich Nietzsche com o tipo de brasileiro boêmio e despreocupado que vive sempre em busca de um rabo de saia. O sarcasmo, o niilismo e o individualismo unem-se à malandragem, resultando num agente funerário que aparenta ter seu próprio código de conduta. Em tantos séculos de literatura brasileira, nem o mais inventivo dos nossos escritores foi capaz de criar um personagem que tivesse a envergadura de um Zé do Caixão. Tarefa essa que ficou para Mojica, um cineasta autodidata, um homem único no mundo das artes.

                                          

Como dedicarei posts exclusivos para falar dos filmes protagonizados por Zé do Caixão, limito-me, por ora, a dizer que À Meia-Noite Levarei Sua Alma mudou profundamente nosso imaginário cultural. As pessoas fizeram fila na porta do cinema. O resultado? Uma série de filmes trazendo, direta ou indiretamente, o personagem. A continuação Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), por exemplo, foi a prova legítima de que Zé do Caixão veio para ficar.

Além de impulsionar uma ampla série de produções cinematográficas, o personagem transcendeu as telas e tornou-se multimídia. Mojica investiu num projeto de histórias em quadrinhos de Zé do Caixão, fotonovelas e, constantemente, aparecia em programas televisivos a caráter, sempre pronto para vender a imagem do agente funerário que mata, estupra e passa a perna em todos.

Além da falta de recursos – um problema histórico da produção cultural brasileira – , Mojica também enfrentou atritos com a censura. Afinal, vivíamos em uma ditadura militar, e ele mostrava, sem nenhum pudor, cenas de morte, sangue, violência e sexo. Mojica presenciou muitas cenas suas serem surrupiadas pelos censores. Logo, lançar os filmes em circuito comercial era uma verdadeira batalha.

Outras obras

Cena de Finis Hominis (1971)

A produção cinematográfica de José Mojica Marins não se resume ao terror. É claro que foi por meio desse gênero que conquistou sua fama mundial – participou e foi homenageado até em festivais de terror no exterior, imortalizando-se com a alcunha em inglês Coffin Joe – , mas ele também transitou pelo drama e pelas pornochanchadas (filmes com elevada carga erótica que se tornaram uma febre nos anos 70 e 80). São exemplos desse outro lado do cineasta: Finis Hominis, 24 Horas de Sexo Explícito, A Mulher que Põe a Pomba no Ar48 Horas de Sexo Alucinante.

O estilo “mojicano”

Apesar de apresentar uma certa semelhança com as características do movimento conhecido como Cinema Marginal, Mojica nunca se preocupou em pertencer a esse ou aquele grupo de realizadores. Ele fazia filmes simplesmente porque amava a sétima arte. Sem nenhum conhecimento acadêmico, o cineasta imprimiu em sua obra um estilo singular. Os personagens excêntricos, os cenários simples, as tramas surreais, os atores  amadores, o homem à procura de sua fêmea, a violência, o sangue, a obsessão pela morte, o humor negro. Tudo isso faz parte do riquíssimo repertório “mojicano”, que lembra um pouco o Expressionismo Alemão – não que Mojica tivesse intenção de fazer referência a ele.

Mojica hoje e a Maratona Zé do Caixão

Joel Caetano, Mojica e Rodrigo Aragão no set de As Fábulas Negras

Com 79 anos de idade, José Mojica tem enfrentado sérios problemas de saúde (o que o impediu de conceder uma entrevista ao Pipoca Radioativa), mas não deixa de trabalhar. Recentemente, dirigiu e atuou em um dos quatro segmentos do longa de terror As Fábulas Negras. O filme, que exibe histórias baseadas em lendas do nosso folclore, já tem exibição garantida no Festival do Rio deste ano.

Ao mesmo tempo em que serve de inspiração para cineastas como Rodrigo Aragão e Joel Caetano (que também dirigem  segmentos de As Fábulas Negras), Mojica, lamentavelmente, padece de um certo esquecimento entre o grande público. Quando eu comentava que estava lendo Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, escrito por Ivan Finotti e André Barcinski, as pessoas franziam a sobrancelha e só conseguiam reconhecer o personagem devido às suas unhas compridas – o nome de Mojica, então, nem era lembrado.

Ao invés de me desmotivar, isso me animou. Senti que tinha a obrigação de falar sobre esse grande artista do nosso cinema. Por isso, anuncio agora a Maratona Zé do Caixão! Como não tenho condições de abordar os mais de trinta e cinco longas que foram dirigidos por Mojica, escolhi seis deles para uma análise mais elaborada. São eles: À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), Finis Hominis (1971) e Exorcismo Negro (1974). (atualização: a maratona já foi feita e basta clicar no nome do filme para ter acesso aos textos).

Saiba mais

Como é impossível falar de toda a vida e obra de Mojica em um único post, deixo aqui recomendações de como você pode conhecer mais sobre ele e a produção do terror no Brasil:

  • Antes de tudo, sugiro o livro Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do  Caixão, dos jornalistas Ivan Finotti e André Barcinski. Trata-se de uma leitura dinâmica e agradável que disseca toda a vida e produção do cineasta –  o livro serviu como  uma espécie de “Bíblia” para eu escrever esse post.
  •  Para acessar a filmografia completa de Mojica, clique aqui.
  •  Neste canal aqui, você pode assistir a vários filmes dele, inclusive aos que foram comentados na maratona.


Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!