07
out
2015
Crítica: “A Incrível História de Adeline”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
A Incrivel Historia de Adeline
A Incrível História de Adeline (The Age of Adeline)
Lee Toland Krieger, 2015
Roteiro: J. Mills Goodloe
Diamond Films

3

O tempo é um monstro que nos engole sem que percebamos.”

Iniciei a crítica parafraseando uma de minhas professoras porque o tempo é na verdade um dos grande protagonistas deste longa. Tal frase faz muito sentido quando se pensa na trama de A Incrível História de Adeline, um filme que tem várias virtudes e, infelizmente, alguns defeitos.

Após sofrer um acidente de carro, quando sua vida já estava estabelecida, casada e com uma filha pequena, Adeline (Blake Lively) é atingida pelo universo na persona de um raio e a partir de então passa a não mais envelhecer, sendo tal fato uma descoberta com o passar dos anos. E, aparentemente, isso ser sonho de muita gente já vista na literatura e cinema, “ser imortal” se torna um tormento para a moça, pois esta está fadada a ver todos aqueles que ama morrerem e a ficar sozinha; Adeline troca constantemente de identidade e de cidade por segurança, desta forma ninguém pode perceber o fenômeno de sua vida. Mesmo assim, ela ainda mantém contato com sua filha Flemming (Ellen Burstyn), que já é uma senhora de idade.

Mas que em determinado momento de sua história, quando está prestes a se mudar novamente, eis que um rapaz chamado Ellis (Michiel Huisman) acaba a conhecendo quando está de saída de uma festa de reveilon. Mesmo tentando fugir do moço, Adeline é pega de surpresa em uma outra ocasião por ele para que aceite um convite para sair. Instigada por sua filha ela resolve dar uma chance ao rapaz e os dois iniciam um romance interessante. Só quando o casal vai visitar os pais de Ellis que as coisas começam a mudar, pois William (Harrison Ford), seu pai, fora um amigo apaixonado de Adeline durante sua adolescência, que se lembra do rosto da moça assim que a vê.

O filme é bastante despretensioso e talvez essa seja sua melhor virtude. O diretor Lee Toland Krieger leva o longa para onde ele deve ir, sem grandes viradas ou surpresas grandiosas. Aliás, o roteiro de J. Mills Goodloe brinca a todo momento com a falta de explicações que a história parece precisar e cria artifícios interessantes ao utilizar seu narrador-observador, o que dá um tom de causo à narrativa. O realismo fantástico da trama é um de seus pontos fortes, principalmente por conta dos flashbacks que soam precisos e necessários durante algumas lembranças de certos personagens. Não são forçados ou cansativos, até porque recordam faces da história de Adeline em diversos momentos cruciais de sua trajetória. A simplicidade é um dos seus pontos fortes.

O casal formado por Adeline e Ellis é preenchido com todos os clichês de romances açucarados já conhecidos, mas com suas próprias nuances e pontos diferentes que o distancia de outros. Entretanto, aspectos como a paixão à primeira vista, o biotipo e algumas de suas ações estão bem marcados, o que pode soar como um defeito aparentemente incorrigível e despercebido.

O elenco é delicado e dedicado. Blake Lively compõe sua Adeline de forma astuta e tem seu olhar bem marcado munido de uma fala calma e reflexiva, convence para a personagem que viveu diversas décadas e algumas delas bastante sozinha e escondida dos outros; Harrison Ford também tem uma atuação bacana ao encontrar um William feliz ao reviver dentro de si uma paixão tão intensa do passado. No entanto, Michel Huisman, que apesar de bastante esforçado, tem alguns momentos em que seu personagem não lhe dá margem para demonstrar grandes traços de interpretação, tendo em vista que o que ele mais faz na trama é se portar como um rapaz bonito, rico, inteligente e que está disposto a lutar pela mulher que ama.

Apesar dos pesares, A Incrível História de Adeline tem bons momentos em cena, boa narrativa e bons personagens. Mesmo que sua trama tenha alguns deslizes e um final não convença tanto, o romance principal é bacana de se acompanhar. O fator tempo é algo que fascina e que ainda vai gerar muitas e muitas outras abordagens no cinema.  



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.