15
out
2015
Crítica: “A Travessia”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
A Travessia
A Travessia (The Walk)
Robert Zemeckis, 2015
Roteiro: Robert Zemeckis e Christopher Browne
Sony Pictures

3.5

O incrível (e nostálgico) diretor Robert Zemeckis, famoso por obras como a trilogia Back to the Future (1985), Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), Forrest Gump (1994) e O Náufrago (2000) está de volta filmando uma história real. Trata-se da encenação do feito do francês Phelippe Petit nos anos 70, quando este resolveu atravessar as Torres Gêmeas do World Trade Center em um cabo.

A saga do equilibrista (interpretado por Joseph Gordon-Levitt) é narrada desde sua descoberta para a arte de se equilibrar até a repercussão que seu ato causou na sociedade. Phelippe é retratado com um jovem artista, sonhador por natureza, que ao esperar o atendimento de um dentista descobre na página de uma revista um dos maiores empreendimentos do mundo: os dois maiores prédios já construídos pela humanidade até então. Tudo isso começa alguns anos antes das torres estarem definitivamente prontas, mas desde aquele momento Phelippe já sonhava em atravessar os arranha-céus que estavam sendo construídos.

Para tanto, ele pretende ir treinando com o passar do tempo para aperfeiçoar sua técnica e encantar o público. Logo ele se desafia a atravessar as torres da Catedral de Notre Dame em Paris, com ajuda de sua namorada, também artista, Annie (Charlotte Le Bon), seu amigo fotógrafo Jean-Louis (Clément Sibony), seu “professor” Papa Rudy (Ben Kingsley) e um rapaz que conhece em Nova York, Jean-Pierre (James Badge Dale). Tal feito vai para a capa dos jornais parisienses, mas seu protagonista acaba sendo detido pela polícia. Depois de alguns anos, o artista e sua namorada embarcam para os Estados Unidos onde acabam por conhecer as Torres Gêmeas. É partir daí que seu plano para levar seus equipamentos para o alto dos prédios e então atravessá-los começa a ser montado para se executar no começo do mês de agosto, quando já teria ocorrido a inauguração do complexo comercial.

Zemeckis narra esta aventura com bastante criatividade. Ótimos planos são inseridos à trama e deixam a história ainda mais divertida para se acompanhar, principalmente os planos surrealistas, como quando a câmera está dentro de uma foto do jornal que Phelippe risca. Há ainda a inserção da narração do próprio protagonista de sua saga que conta esta história em cima da Estátua da Liberdade, o que pode ser um defeito de linguagem, tendo em vista que algumas cenas se tornam bastante redundantes. A fotografia e a arte só contribuem para esse aspecto do filme, o diretor gosta de planos subjetivos em cenas que podem causar um grande frio na barriga e, mesmo não se utilizando do zoom vertigo, dá pra sentir uma pequena e leve sensação de vertigem quando o protagonista está em sua ação no cabo acima de mais de cem andares. A caracterização das personagens e figurantes também é interessante, as cores marcantes da época estão lá e não são falsas. O 3D é muito bem utilizado, há uma profundidade de campo interessante, temos a real sensação de estarmos na pele de Phelippe durante algumas cenas. E diversas coisas correm em direção ao público, o que deixa tudo ainda em um universo bem lúdico, marca registrada de seu realizador.

Apesar de uma construção narrativa satisfatória, de um 3D bem utilizado e de uma arte bastante interessante, o filme peca excessivamente em alguns diálogos, sobretudo quando Phelippe, um francês conversando com outros franceses na França, quer apenas conversar em inglês com a justificativa de que precisa praticar a língua para quando chegar a Nova York. Fica claro que é um recurso para a não inserção de legendas no filme, tendo em vista que Jeff (César Domboy) diz, logo que conhece Phelippe, que não sabe falar inglês fluentemente, mas mais pra frente há alguns diálogos dos dois apenas em inglês. Além dessa justificativa inverrossímil, há um furos tristes no roteiro, ainda mais sendo uma história real. No documentário Man on Wire (James Marsh, 2008), que também investiga os fatos deste evento vemos claramente que este recurso foi inventado para o filme, provavelmente com receio da baixa bilheteria. Aliás, o documentário é muito bacana e merece ser visto por quem tem interesse neste longa.

Mesmo com isso, o ato final é bastante interessante. O espectador fica angustiado com a conclusão da façanha do protagonista e os problemas que acontecem até que tudo esteja bem. A cena da travessia, propriamente dita, é muito bem construída, intercalada com várias elucubrações de Phelippe, a tensão do público que de baixo começava a se aglomerar na rua para assistir tudo de tão longe e dos cúmplices do equilibrista. Com o recurso da câmera subjetiva, o espectador, mais uma vez, se sente em cima daquela corda.

Gordon-Levitt tem uma atuação boa, imitando um sotaque francês pouco forçado. Seria interessante ter visto um ator realmente francês no papel, poderia ter ficado melhor, mas este é bastante esforçado e com um preparo físico interessante para o papel, tendo em vista que Petit é um artista muito versátil. O restante do elenco também é bacana e cumprem seus papeis com bastante êxito.

Com ótimos efeitos, boa narrativa e mesmo com um roteiro um pouco falho, A Travessia é um filme que merece ser visto na grande tela. Zemeckis cumpre seu papel passando diversas sensações inusitadas ao seu espectador, proporcionando grande diversão ao explorar uma história real e surpreendente.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.