02
out
2015
Crítica: “As Fábulas Negras”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcelo Silva
20150529160749

As Fábulas Negras

Rodrigo Aragão, Petter Baiestorff, José Mojica Marins e Joel Caetano, 2014
Roteiro: Rodrigo Aragão, Petter Baiestorff e Joel Caetano
Fábulas Negras Produções Artísticas Ltda.

4.5

De um lado, grandes lendas do nosso folclore. Do outro, morte, mutilação, peitos e sangue, muito sangue. Por trás disso tudo, a mente de quatro destaques do cinema de terror nacional. Essa é a fórmula que rege As Fábulas Negras, um filme totalmente independente que surge para calar a boca de todos os que questionam a qualidade das produções de gênero do Brasil.

Na primeira cena do longa, vemos quatro garotos fantasiados brincando, ao som de uma trilha que remete aos filmes de super-heróis, em uma floresta. Em meio a um ou outro intervalo entre as brincadeiras, eles passam a contar fábulas de terror. A cada história, um diretor, uma estética diferente – é aí que reside a graça da obra.

Apesar das singularidades de cada cineasta, os cinco segmentos apresentam elementos em comum: o humor perpassando a narrativa, o intenso derramamento de sangue e a preocupação em apresentar tudo de um jeito bem brasileiro.

No primeiro conto, chamado O Monstro do Esgoto, o diretor Rodrigo Aragão (de Mangue Negro) usa e abusa da sátira de situações ou casos que presenciamos cotidianamente. Logo de cara, vemos um prefeito corrupto e glutão que não só deixa de lado a questão do saneamento básico, mas também zomba do povo. Alguns minutos depois, somos apresentados a um cidadão comum que, convivendo com um despejo de dejetos nas proximidades da sua própria residência, esbarra na burocracia municipal ao tentar resolver o problema – curiosamente, uma situação que ocorreu com o próprio Aragão, como ele mesmo contou no Festival Kinoarte. É claro que, dessa combinação de sujeira do esgoto, surge uma criatura nada simpática.

Além de ter sua trama pautada por um excelente timing cômico – não é um terror que se preocupa em soar denso ou amedrontador, mas sim em levar ao público aquilo que ele quer ver -, O Monstro do Esgoto é tecnicamente bem realizado. Um homem é trucidado vivo em uma cena incrivelmente realista, na qual não se vê nem sinal de computação gráfica barata ou do desgastado artifício de tremer a câmera excessivamente. Muito pelo contrário, o que predomina é o talento de Aragão, cujo trabalho foi além da direção e envolveu também toda a maquiagem de As Fábulas Negras. Monstros, lobisomem, cadáveres, cicatrizes. Tudo isso passou pelas hábeis mãos do cineasta capixaba, que deixaria até mesmo os grandes maquiadores de Hollywood com dor de cotovelo.

O segundo curta chama-se Pampa Feroz, dirigido por Petter Baiestorf (de Zombio). Nele, a lenda universal do lobisomem é mostrada sob contornos brasileiros, envolvendo um grupo de homens encarregados de exterminar a criatura que tem atacado as terras de um coronel. De certo modo, Baierstoff mostra um pouco do estilo de vida rural – o sotaque, a rusticidade, as roupas típicas e as cantigas conferem um charme extra à história. Soma-se a isso a atuação inspirada de Markus Konká, que, na pele do Pai Pedro, atua como se fosse a estrela de uma grande peça de teatro, não poupando gestos e tom de voz elevados. É claro que também não podia faltar o mistério em torno da identidade do lobisomem – o desfecho, inclusive, surpreende o espectador. Isso para não falar do exato momento em que a criatura transforma-se na forma humana (mais uma prova da genialidade de Aragão como maquiador).

A terceira história é O Saci, dirigida por ninguém menos do que José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão. Vê-lo com 79 anos na direção de um filme é uma satisfação imensa, sentimento que só aumenta quando ele surge em tela para fazer uma participação especial como um pastor surtado. Em seu segmento, que conta a experiência traumática de uma jovem perseguida por um nada amigável saci, Mojica satiriza, de maneira divertidíssima, os evangélicos e o fanatismo religioso. Impossível não assistir a esse trecho tão bem humorado e executado sem esbanjar um mínimo sorriso – do ponto de vista técnico e narrativo, O Saci não fica devendo em nada para os outros curtas.

Apesar de estreante em longa-metragens, Joel Caetano (do curta Gato) exibe uma maturidade de veterano em A Loira do Banheiro, que é não apenas a mais densa e sombria das cinco histórias, mas também a melhor. Por meio da fotografia apurada de Marcelo Castanheira e Alexandre Barcelos e de uma direção de arte igualmente elogiável, Caetano ambienta a sua fábula em um claustrofóbico internato assombrado pela loira do banheiro.

Todos os elementos de um clássico terror estão presentes – o local amaldiçoado, o segredo obscuro do passado, a diretora durona, o assistente deformado, o grupo de garotas malvadas. Combinados com um elenco primoroso e uma montagem precisa na hora de inserir flashbacks, esses ingredientes contribuem para que A Loira do Banheiro se destaque entre as demais histórias e leve o espectador a questionar se não seria o caso de adaptá-la para um longa próprio.

Por último, temos A Casa de Iara, com Rodrigo Aragão novamente na direção. A trama envolve uma mulher que, desprezada e traída pelo próprio marido, entra em uma relação inusitada com o próprio demônio. Mesmo sendo essencial para o desfecho da obra como um todo, esse conto parece um pouco deslocado e não tem o mesmo destaque dos demais. O ritmo lento, marcado pela falta de diálogos, acaba tornando-o monótono para o espectador, que, se esperava ser deixado em êxtase nos minutos finais, terá uma leve decepção.

No final das contas, As Fábulas Negras não é apenas uma obra de terror com tempero tipicamente tropical (ou um banho de sangue no folclore brasileiro, como anunciava o trailer). Trata-se, na verdade, de uma produção que mostra a força do cinema independente. Que Aragão e companhia voltem a encher a tela grande de monstros – e nos brindem, cada vez mais, com filmes dignos de um lugar na prateleira de qualquer cinéfilo.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!