05
out
2015
Crítica: “O Último Cine Drive-In”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin
O Último Cine Drive-In
Iberê Carvalho, 2014
Roteiro: Iberê Carvalho
Vitrine Filmes

3.5

Pegue várias referências de filmes clássicos como Poderoso Chefão e Taxi Driver, coloque atores veteranos como Othon Bastos, adicione uma nostalgia com cinemas drive-in e misture tudo isso nos cenários da capital brasiliense: O Último Cine Drive-In é um filme despretensioso que começa timidamente mas que vai conquistando o público com suas belas sacadas e humor leve. A simplicidade é refletida em diversas instâncias: tanto de orçamento, quanto de história; temos claramente uma obra que tem por objetivo mostrar seu amor ao cinema, um cinema que resgata, que une e que emociona.

O protagonista do filme é Marlon Brando (Breno Nina) que ao dormir na propriedade alheia de um tal de Almeida é acordado por Paula (Fernanda Rocha) e diz que o está procurando. É então que descobrimos que Almeida (Othon Bastos) é o dono do último cine drive-in da cidade (e do Brasil) e pai de Marlon Brando. O moço, que vivia no interior com a mãe, pede ajuda ao pai (que não se refere desta forma) para ser abrigado enquanto esta está internada no hospital com uma doença terminal. Mesmo depois de muito tempo sem se verem e se falarem, Almeida tenta ajudar o filho de todas as maneiras e o acolhe em sua casa. A partir de então assistimos de perto o desejo do garoto de realizar um dos últimos sonhos de sua mãe de visitar o cine drive-in como era antigamente, já que nos dias atuais o espaço está na miséria com pouquíssimos clientes interessados, tendo em vista que Almeida ainda arranja forças para disputar a preferência do público com multiplex em shoppings que oferecem filmes em 3D e em altas tecnologias.

É interessante observar que o filme declara seu amor pelo cinema de todas as formas; seja nos cartazes e nas cenas de referências (vemos diversos filmes na grande tela do drive-in em diversas cenas), acompanhamos o trabalho de um “operador cinematográfico” e nos deliciamos com as desavenças e intrigas bobas criadas pelos personagens durante a construção da narrativa. Paula e Marlon Brando tem ótimos momentos em cena, um ponto a mais para os atores Fernanda Rocha e Breno Nina, respectivamente, que convencem na pele de seus personagens. Aliás, Fernanda, que ganhou melhor atriz coadjuvante no Festival do Rio de 2014, é um destaque do longa e uma atriz com grande potencial, mesmo sua personagem sendo um mistério não solucionado. Othon Bastos também está incrível (como sempre) e seu Almeida é engraçado, turrão e convincente na medida.

O roteiro tem uma boa sacada com relação à esta trama familiar, que apesar de certa previsibilidade é bastante divertido e, portanto, cumpre seu papel. Há uma certa falta de desenvolvimento com relação a um político (vivido por Zé Carlos Machado) que pretende tomar o drive-in para construção de uma obra. Este arco soou interessante e aparentemente importante quando apresentado, mas que some no decorrer do filme. O que está em jogo, na verdade, é a reforma do drive-in para que Fátima (Rita Assemany), mãe de Marlon Brando, possa ter um pouco mais de alegria antes de partir, já que ela tem ótimas recordações dos tempos de ouro do cinema. Vale destacar também as boas conversas de Zé (Chico Sant’Anna), um dos funcionários de Almeida, com todos os personagens.

As mensagens subliminares do filme também são pontos fortes. Em determinada discussão, Almeida bate o pé sobre determinadas coisas que estão acontecendo e quando um personagem sai de cena o que vemos atrás dele é o poster de O Poderoso Chefão (Francis Ford Copolla, 1972) que fica em destaque por alguns segundos. Também há referências a Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988), Central do Brasil (Walter Salles, 1998) e fotos espalhadas de Robert De Niro no papel de Travis Bickle em Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976).

O diretor Iberê Carvalho soube usar a simplicidade para construção de seus planos, em sua maioria abertos e com valorização dos cenários. E é com essa simplicidade que o filme se encerra e faz os verdadeiros amantes do cinema ficarem empolgados com os acontecimentos, apesar dos problemas familiares, a união fez a força. Mesmo com alguns problemas de roteiro, o filme é bem executado e bastante agradável de se assistir. O espectador ficará bastante interessado em saber para onde esses personagens estão indo, principalmente se o cinema for uma de suas paixões.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.