18
out
2015
Crítica: “Perdido em Marte”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016 • Postado por: Matheus Benjamin
Perdido em Marte (The Martian)
Ridley Scott, 2015
Roteiro: Drew Goddard
Fox Filmes

4

Ao terminar a sessão de Perdido em Marte tive a ótima sensação de ter visto um bom trabalho desempenhado por um diretor que é bastante aclamado, mas que há tempos não apresentava algo bacana. Mesmo trazendo à tona uma adaptação de um livro (de Andy Weir), Ridley Scott mostra que está de volta e com seu mesmo vigor de trabalhos anteriores que o fizeram ser reconhecido.

Matt Damon (que também ficou perdido pelo espaço em outro filme do gênero) está de volta interpretando Marc Watney, um astronauta botânico que é dado como morto (e deixado para trás) depois de uma saída às pressas da missão Ares 3 no planeta vermelho quando fora atingido por antena e jogado para longe de sua tripulação. A partir de então, quando desperta do acidente, este se recolhe em uma nave, onde faz um curativo em seu ferimento e conta seus suprimentos até a data prevista da próxima missão, quando poderia ser resgatado. Com isso, Marc, que havia visto que morreria nestas condições por estar completamente sozinho há milhares de quilômetros de casa, resolve lutar pela vida e cultivar batatas dentro da nave.

Até um determinado ponto da narrativa, o espectador acredita estar vendo um filme de um homem só que luta pela sua sobrevivência em um lugar desconhecido (filmes de outros temas já abordaram este aspecto). Para tanto, vê-se Marc conversando com as câmeras da nave, uma forma de diálogo com o público e registrando sua experiência como um diário. Com isso, o protagonista torna-se ainda mais interessante ao seu espectador, pois tal recurso o aproxima, ainda mais com o uso de seu bom humor e a trilha sonora deixada para trás da chefe Melissa (Jessica Chastain), que é pautada em sucessos das discotecas dos anos 70 e 80 – aliás, por conta disso, os créditos finais tornam-se engraçados. Tudo ocorre enquanto da Terra, uma equipe liderada por Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor) tenta a todo custo conseguir contato com Marc.

A montagem, a partir da inserção destes personagens, favorece o filme e o segundo ato é permeado de descobertas, tanto do lado de cá, quanto do lado de lá. Mesmo já tendo uma leve noção de onde esta história irá desembocar, o espectador ansia com cada nova descoberta, porque a narrativa ágil deixa tudo muito interessante. Alguns personagens são muito bem desenvolvidos, outros são descartados. A equipe (composta – além de Chastain – pelos personagens de Michael Peña, Kate Mara, Sebastian Stan e Aksel Hennie) que estava com Marc retorna em um momento crucial da trama e alguns laços afetivos entre eles são desenvolvidos rapidamente, com o objetivo de dar ainda mais emoção para o espectador.

Os cenários de Perdido em Marte são incríveis! Os planos, em sua maioria, são abertos e exaltam as paisagens “marcianas”. O espaço também é retratado de forma que enche os olhos, algumas cenas podem gerar até agonia. Desta forma, o 3D é bem utilizado e as cores também. Como já mencionado, a trilha sonora é um show a parte por fazer referência às discotecas, tanto admiradas pela personagem de Chastain.

Mas há dois momentos um tanto quanto esquisitos no roteiro, que certamente ocorreram por falta de tempo para o seu desenvolvimento: o primeiro deles é o governo da China cair de paraquedas na trama para ajudar a NASA; o segundo é o personagem Rich Purnell (Donald Glover) que aparece trabalhando, em seguida tem uma grande ideia que é compatilhada com seu chefe, que é entregue à NASA, é discutida e o cara simplesmente desaparece para aparecer no final do filme – quase para constatar que seu nome apareceria nos créditos. Tirando isso, temos um bom filme de ficção científica com um ótimo protagonista e ótimos coadjuvantes. No elenco ainda se encontra Sean Bean (que não morre), Mackenzie Davis (que é bastante importante no salvamento do perdido), Kristen Wiig (das comunicações) e Jeff Daniels (que ensaia um antagonista).

É engraçado? É. Tem cenas agoniantes? Sim (muitas, eu diria). Tem um ótimo elenco? Sim. A história convence? Sim. Dá pra acreditar em tudo? Não. Há certas coisas que até mesmo eu, um leigo no assunto, fiz minhas as palavras de Marc “Are you fucking kidding me?”, mas tudo bem, a gente releva e curte este filminho que tem tudo pra agradar os fãs órfãos dos bons trabalhos de Ridley Scott.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.